28 de outubro de 2014

RELATOS SELVAGENS (Relatos Salvajes, 2014)

Imagine uma pessoa em seu escritório, que fica na sua e leva o seu serviço a sério. O problema é que na sala ao lado tem duas secretárias que, quando o chefe não se encontra, começam a conversar em demasia e falar de coisas por vezes alienadas. Isso acaba estressando-o, ao ponto dele desejar matá-las das mais diversas formas possíveis.

Claro que todo ato há consequências e por mais que a pessoa tenha desejo de botar para fora a raiva que sente, sempre terá algo em seu interior para frear. Mas o que aconteceria se a pessoa dissesse “dane-se o mundo” e colocasse para fora o seu lado mais obscuro? A resposta se encontra no mais novo filme argentino Relatos Selvagens!

Dirigido por Damián Szifrón (Tempos de Valente), o filme apresenta seis seguimentos: passageiros de um avião começam a descobrir que todos têm ligação com o piloto, que por sua vez os culpa devido ao seu passado traumático; garçonete descobre que seu cliente foi alguém que arruinou o seu passado; dois motoristas se cruzam, se desentendem na estrada e a relação nada amistosa os leva para um caminho sem volta; engenheiro de implosões se revolta com as multas que ele vive levando; para salvar o filho, milionário tenta colocar um falso culpado em cena de atropelamento; noiva descobre justamente na festa de seu casamento, que o seu noivo tem uma amante.

Todos os seguimentos da trama são na realidade histórias das quais nós cruzamos todos os dias, ou que nós mesmos já fomos os próprios protagonistas. A diferença está no fato de alguns de nós nunca chegarmos a esse ponto do qual que os personagens chegam, mas acabamos aplaudindo mentalmente determinada pessoa quando comete determinados atos, dos quais não cometemos por falta de coragem ou devido as suas consequências. Pegamos por exemplo o personagem de Ricardo Darín, que, quando chega ao fundo do poço ao alimentar ao máximo o sistema aonde vive, decide se vingar da maneira mais imprevisível e as pessoas à sua volta, que antes passavam pelo mesmo calvário, o aplaudem como herói.

É um filme que possui a mesma mensagem do já clássico Um Dia de Fúria estrelado por Michael Douglas, mas que aqui mira e acerta todos os níveis de nossa sociedade contemporânea que, por vezes, se disfarça com máscaras cada vez mais mentirosas. Por mais que nos culpemos, lá no fundo do nosso subconsciente, não tem como não rirmos de determinadas tramas que sintetizam exatamente o que passamos, vemos e reprovamos. De todos os seguimentos da trama, a da noiva (Erica Rivas, espetacular), que por vezes nos lembra algumas das protagonistas dos filmes de Pedro Almodóvar, desde já é disparada a melhor.

Falar desse que é, na realidade, o último seguimento do filme, estragaria inúmeras surpresas brilhantemente bem filmadas. O que posso dizer é que ele reúne drama, romance, tensão, suspense e, por incrível que pareça, momentos "gore" (sanguinolentos). Um seguimento que é uma representação nenhum pouco disfarçada sobre o modelo do casamento, que atualmente se encontra falido.

Mas para aqueles que ainda acreditam que esse modelo de união ainda funcione e sonhe em se casar de véu e grinalda, adianto que a trama termina de forma épica, otimista, mas que corresponde com a proposta que o filme quer passar para o cinéfilo que assiste. É claro que haverá alguns críticos dizendo que Damián Szifrón é uma espécie de "Quentin Tarantino argentino", por saber unir humor negro com boas doses de violência. Mas num período em que o cinema dos nossos hermanos parecia que estava deixando de lado a criatividade para viver de comédias fáceis, Relatos Selvagens é um filme muito bem-vindo e qualquer tipo de comparação é perdoável.

23 de outubro de 2014

Trash – A Esperança que vem do Lixo

Stephen Daldry impressiona pela sua sensibilidade na construção do mundo infantil e saber conduzir muito bem personagens mirins como protagonistas em seus filmes como Tão Forte e Tão Perto. Com parceria do roteirista Richard Curtis (Simplesmente Amor) ambos criam uma aventura juvenil, que embora tenha um pé com relação à dura realidade de certas favelas do país, não excita em dosar momentos de fantasia e esperança. Baseado na obra de Andy Mulligan, existem sim cenas violentas, principalmente no início do filme, mas nada que crie pesadelos para o jovem cinéfilo e que com certeza já viu coisas mais fortes até mesmo na TV aberta.

A aventura se passa no Rio, onde vemos um garoto chamado Rafael (Rickson Tevez) que, num dia qualquer de trabalho em um lixão, encontra uma carteira com uma enigmática chave. A curiosidade do jovem desperta e com ajuda do seu melhor amigo Gardo (Eduardo Luiz) e do esperto garoto chamado Rato (Gabriel Weinstein), partem para descobrir a origem da chave e ao mesmo tempo conseguir alguma coisa com isso. Não demora muito para o cinéfilo descobrir que os significados que contem essa carteira é muito maior do que se imagina.

Não tarda para a jovem trindade sofrer a perseguição de um policial corrupto (Selton Mello) que há serviço de um deputado mais corrupto ainda (Stepan Nercessian) tentam a todo custo recuperar a carteira. O que tem de tão valioso nessa chave e as motivações que levam todos atrás dela, aos poucos o filme vai revelando em flashback, cujas cenas são protagonizadas por Vagner Moura. Embora a sua participação seja pequena, é essencial e, como aperitivo, temos o prazer de vê-lo contracenar com Selton Mello, numa cena curta, mas marcante.

Curiosamente temos aqui a participação de dois ótimos talentos, mas de gerações diferentes: Martin Sheen e Rooney Mara (da versão americana de Homens que não amavam as mulheres), que interpretam padre e professora que estão a serviço da favela que está localizada no lixão. Embora com todos esses talentos conhecidos, os astros aqui são realmente o elenco mirim formado Rickson Tevez, Eduardo Luiz e Gabriel Weinstein que por vezes chegam até mesmo a ofuscar os talentos adultos que se encontram em cena, graças ao fato de serem naturais e descontraídos.

Numa verdadeira aventura, que por vezes lembra até mesmo O Código Da Vinci com suas inúmeras charadas e quebra cabeças, o filme possui um ritmo contagiante, graças a sua montagem energética e trilha sonora caprichada. Os meninos, por si, surpreendem nas cenas que exigem deles um grande preparo físico nas cenas mais perigosas. Selecionados em meio a milhares de candidatos, o cineasta Stephen Daldry foi feliz nas suas escolhas.

Embora com alguns momentos forçados, principalmente com algumas soluções fáceis no ato final, Trash – A Esperança que vem do Lixo pelo menos é uma boa aventura juvenil que ainda consegue ter tempo de criticar e apontar o dedo para as grandes corporações que não exitam em ajudar políticos corruptos em épocas de eleições.

20 de outubro de 2014

DRÁCULA: A História Nunca Contada (2014)

Histórias de vampiros sempre são atraentes. A mitologia criada em torno dos personagens sempre trabalha muito a questão de relacionamentos extremamente passionais, o comprometimento da alma por uma paixão terrena em um pacto demoníaco. A história de Drácula é sempre colocada como o ápice desta cultura, como se fosse o próprio anticristo. Nessa linha, “Dracula Untold” chegou aos cinemas como uma grande promessa para esse ano, ao tentar justificar as ações do príncipe Vlad, da Transilvânia e colocá-lo com um status de “herói”.

Na história do filme, o príncipe Vlad (Luke Evans), da Transilvânia, após anos de paz, é cobrado pelo sultão da Turquia (Dominic Cooper), do qual é vassalo, para que forneça 1000 meninos para se tornarem seus soldados, incluindo o seu primogênito. Ao se negar a fornecer seu filho, ele vê uma guerra ser declarada... e, antes mesmo do desespero de ver seu povo sofrer, Vlad faz um pacto com um vampiro mestre para usar seus poderes contra o exército turco. Se em 3 dias ele resistir à sede de sangue humano, ele volta ao normal, do contrário ele liberta o outro vampiro de sua maldição e assume seu lugar como a criatura sombria. Ele toma essa atitude sob a justificativa de que “às vezes o mundo não precisa de um herói, mas sim de um monstro”.

O filme, no entanto, deveria ter o título alterado para “Drácula: A História Mal Contada”, pois a obra, como um todo, ficou medíocre. No fim ele traz uma abordagem meramente comercial que ainda preserva “Drácula de Bram Stoker”, do cineasta Francis Ford Coppola, como o melhor filme de vampiros de todos os tempos. A trilha sonora até se esforça ao tentar dar um tom de épico, mas a fotografia poderia ter sido mais caprichada para dar o tom sombrio necessário. As atuações são muito fracas, de todos os atores. Todos parecem amadores e nem a presença do carimbado Charles Dance ajuda.
O problema maior é que o roteiro ficou raso e não deu importância ao drama do personagem central, utilizando de justificativas rasas para as suas ações, além da direção focar integralmente em ação e efeitos visuais. O embate entre o bem e o mal, tenta colocar Drácula como herói, vítima das circunstâncias, como se combater o mal justificasse fazer um pacto com o demônio. Um público mais seleto e conservador não aceita bem esse tipo de abordagem. ... como se Hitler, ou qualquer outro déspota, pudesse desculpar as suas atrocidades pelo bem de seu povo e a ainda ser mantido como herói. Além disso, o filme parece tentar copiar a história de 300 de Esparta, em que um pequeno batalhão consegue fazer frente ao maior dos exércitos, mas colocando apenas Drácula contra todos e, (Alerta nerd!) ainda colocando-o como uma mistura de Superman e Batman, com capa vermelha, morcegos e uma caverna pretensa a fortaleza da solidão... ah! e ele tem a própria kryptonita... o maior dos vampiros aqui é alérgico à prata.

Definitivamente, uma grande decepção. Até a próxima.


16 de outubro de 2014

ANNABELLE (2014)


Em 1968, Roman Polanski havia dirigido "O Bebê de Rosemary" (segunda parte de sua “trilogia dos Apartamentos”, iniciada com "Repulsa do Sexo" e encerrada em "O Inquilino"), em que uma mulher grávida (Mia Farrow) suspeita da possibilidade de dar a luz ao próximo anticristo. A esposa do diretor, Sharon Tate (que estava grávida de oito meses do primeiro filho do casal) foi assassinada brutalmente numa seita demoníaca no dia 9 de agosto de 1969 por integrantes da Família Manson, liderada por Charles Manson, num dos mais famosos e bárbaros crimes da história criminal dos Estados Unidos. Portanto, assistir o início do filme Annabelle me fez recordar desses eventos ocorridos no final dos anos 60 com Polanski, sendo que aquela época estranhamente havia muitos casos parecidos e que ainda hoje são inexplicáveis.

Derivado do grande sucesso de público e critica que foi Invocação do Mal, a figura da boneca Annabelle já naquele filme demonstrava potencial para estrelar um longa metragem só seu e, embora não seja dirigido pelo mesmo cineasta, John R. Leonetti pelo visto fez sua lição de casa e aprendeu com James Wan (Sobrenatural 1 e 2) como se faz um bom filme de terror, como se fazia antigamente. É claro que os fãs da obra de Wan sentiram muita saudade do simpático casal paranormal do filme anterior, interpretados respectivamente por Vera Farmiga e Patrick Wilson. Porém, se os atores Annabelle Wallis (você leu direito sim) e Ward Horton por um lado não superam os seus antecessores, por outro também não atrapalham o resultado final.

Interpretando um casal recém casado, ambos estão esperando o nascimento de sua filha. Ao mesmo tempo surge em suas vidas uma boneca parecida com que a esposa tinha no passado. Em meio a isso, (meio que sem querer), acabam testemunhando um crime bárbaro e que remete aos casos de seitas demoníacas que rolavam no final dos anos 60.

Os minutos iniciais do filme já dão uma bela dica do que estará por vir e os fãs de Invocação do Mal não ficaram nenhum pouco decepcionados. Pode-se dizer que todas as formulas de sucesso vistas no filme anterior estão lá: cadeiras se mexendo, portas rangendo, sequências de cenas sem cortes, vultos em corredores e luz e sombras brincando com a expectativa do cinéfilo que assiste. Tudo isso muito bem moldurado em cenas que não há apelação nenhuma aos efeitos visuais e tão pouco ao sangue.

Pode-se dizer que os mais recentes filmes de terror estão recorrendo a fórmulas antigas de como se fazia uma obra desse gênero e pelo visto, velhos métodos sendo bem dirigidos nunca se desgastam. Pegamos um belo exemplo da cena da máquina de costura que entre cortar com a cena da cozinha: o diretor foca o dedo da protagonista e a agulha em movimento e mesmo a gente sabendo que ela vai se machucar, a tensão começa a correr em nossas veias, pois a montagens de cenas muito bem dirigidas faz a diferença.

Mas quem espera a famigerada boneca sendo vista durante o tempo todo em cena pode se decepcionar um pouco. O caso que ela é apenas um fantoche (ou recipiente) ou simplesmente um cartão de visitas, para a vinda de forças sobrenaturais que ficam em volta do casal e do seu bebê o tempo todo. Claro que quando ela surge simplesmente rouba a cena e sua presença já está mais do que registrada na galeria de monstros dos filmes de terror de qualidade.

Claro que nada é perfeito, sendo que o ato final passa a sensação de que tudo foi corrido demais para solucionar os conflitos da trama. Isso sem contar o fato de já termos uma ideia sobre o destino da boneca, pois quem já viu Invocação do Mal, sabe que essa trama é anterior àquela história. Apesar desses deslizes, felizmente o saldo é mais positivo do que negativo.

Com elenco que conta ainda com as participações de Alfre Woodard, Tony Amendola e Eric Ladin, Annabelle veio aterrorizando e cumprindo o que promete. Mas caso aja mais sequências, é para torcer para que ela não caia na vala de continuações dispensáveis como aconteceu com a sua cara metade Chucky.

15 de outubro de 2014

CASTANHA (2014)



No ano passado eu havia assistido na Casa de Cultura Mario Quintana o filme "Esse Amor que nos Consome", onde mostrava uma dupla responsável por um grupo de dança alternativa. O que me chamou atenção naquele filme é pelo fato dele transitar entre a ficção e documentário, já que os protagonistas estavam atuando como eles mesmos e mostrando na frente da câmera o seu cotidiano. Esse tipo de cinema brasileiro talvez tenha começado a partir de 2007, com o maravilhoso "O Jogo de Cena" de Eduardo Coutinho e com certeza irá se fortalecer ainda mais com Castanha.

Em seu primeiro longa metragem, Davi Pretto usa pouquíssimos recursos, porém eficientes, para focar o dia a dia de João Carlos Castanha, que durante as noites nas baladas de Porto Alegre, vira transformista para alegrar determinadas boates gays da capital gaúcha. Ao mesmo tempo convive com a sua mãe Celina e com um problemático sobrinho chamado Marcelo, que transita na marginalidade, cada vez mais distante de uma redenção. O grande charme do filme está no fato de não sabermos ao certo o que é real e o que é ficção, pois o próprio protagonista para por um momento no que está fazendo e fala sobre a sua vida de ontem e hoje na capital.

Durante o dia, o protagonista passeia por lugares conhecidos da cidade, como a Casa de Cultura Mario Quintana e fazendo com que nos identificamos nestes momentos com ele. Mesmo quando ele se apresenta de uma maneira em que nos faça convencer a diferenciá-lo de nós. Mas isso não acontece.

Curiosamente, alguns momentos imprevisíveis surgem. Quando ator (ou personagem) dá de encontro com uma situação, onde estão ocorrendo filmagens de um casal discutindo, tem-se ali então um belo exemplo do cruzamento de ficção e realidade: estaria o personagem trabalhando num filme dentro da história? Seria o próprio João Carlos Castanha trabalhando no filme que estamos assistindo?

Ao mesmo tempo, o filme procura ser um retrato do nosso mundo contemporâneo atual, pois mesmo não dando enfoque sobre determinados assuntos, eles estão ali nas entrelinhas. Belo exemplo é o fato de nós sabermos em que época a trama se passa, a partir de assuntos do cotidiano do protagonista conversando com um taxista ou quando vemos o noticiário da TV e damos de cara com os protestos que se espalharam no país no ano passado. Temas políticos estão espalhados em toda projeção de forma discreta, mas certeira e embalados com um humor sarcástico do protagonista.

Contudo, Castanha por vezes tem o seu desempenho eclipsado pela atuação de sua própria mãe, que atua naturalmente e nos emociona quando toca no assunto com relação ao seu ex-marido, que atualmente se encontra no asilo. As cenas em que mostram o pai de Castanha no asilo são poucas, mas falam por si e correspondem um pouco sobre o tipo de relação que ambos tinham um com o outro. Aliás, essas cenas também representam um pouco sobre o passar tempo, que para o bem ou para o mau ele corrói e destrói tudo que existe.

A imagem de Castanha transformista na boate gay, mesmo conduzindo o seu público com o seu bom humor, não esconde o fato de sua imagem ser uma figura pálida do que já foi um dia. Os traços do seu rosto, emoldurado por uma pesada maquiagem, tentam inutilmente esconder as marcas do passado, do seu presente e de um futuro indefinido. Talvez isso seja de propósito, sendo talvez uma representação cansada de sua luta perante uma sociedade que se encontra indefinida, não sabendo para aonde vai e ficando presos por valores que se encontram hoje falidos.

Valores esses que talvez deixem o mundo em que Castanha vive um tanto que nebuloso. Querendo ou não, ele pertence há uma sociedade cada vez mais conservadora e alienada com políticos formados por pastores e que usam a palavra da bíblia como arma contra uma fatia de público que vai contra a maré dessa sociedade hipócrita. Mesmo com os percalços, os minutos finais nos dizem para não desistir e levarmos tudo pelo bom humor, mesmo quando isso parece não ter fim.

Cru, simples e direto, Castanha é isso e muito mais. Levando-nos a questionar o mundo que vivemos e fazendo nos identificar e nos questionar a nós mesmos.


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