15 de outubro de 2014

CASTANHA (2014)



No ano passado eu havia assistido na Casa de Cultura Mario Quintana o filme "Esse Amor que nos Consome", onde mostrava uma dupla responsável por um grupo de dança alternativa. O que me chamou atenção naquele filme é pelo fato dele transitar entre a ficção e documentário, já que os protagonistas estavam atuando como eles mesmos e mostrando na frente da câmera o seu cotidiano. Esse tipo de cinema brasileiro talvez tenha começado a partir de 2007, com o maravilhoso "O Jogo de Cena" de Eduardo Coutinho e com certeza irá se fortalecer ainda mais com Castanha.

Em seu primeiro longa metragem, Davi Pretto usa pouquíssimos recursos, porém eficientes, para focar o dia a dia de João Carlos Castanha, que durante as noites nas baladas de Porto Alegre, vira transformista para alegrar determinadas boates gays da capital gaúcha. Ao mesmo tempo convive com a sua mãe Celina e com um problemático sobrinho chamado Marcelo, que transita na marginalidade, cada vez mais distante de uma redenção. O grande charme do filme está no fato de não sabermos ao certo o que é real e o que é ficção, pois o próprio protagonista para por um momento no que está fazendo e fala sobre a sua vida de ontem e hoje na capital.

Durante o dia, o protagonista passeia por lugares conhecidos da cidade, como a Casa de Cultura Mario Quintana e fazendo com que nos identificamos nestes momentos com ele. Mesmo quando ele se apresenta de uma maneira em que nos faça convencer a diferenciá-lo de nós. Mas isso não acontece.

Curiosamente, alguns momentos imprevisíveis surgem. Quando ator (ou personagem) dá de encontro com uma situação, onde estão ocorrendo filmagens de um casal discutindo, tem-se ali então um belo exemplo do cruzamento de ficção e realidade: estaria o personagem trabalhando num filme dentro da história? Seria o próprio João Carlos Castanha trabalhando no filme que estamos assistindo?

Ao mesmo tempo, o filme procura ser um retrato do nosso mundo contemporâneo atual, pois mesmo não dando enfoque sobre determinados assuntos, eles estão ali nas entrelinhas. Belo exemplo é o fato de nós sabermos em que época a trama se passa, a partir de assuntos do cotidiano do protagonista conversando com um taxista ou quando vemos o noticiário da TV e damos de cara com os protestos que se espalharam no país no ano passado. Temas políticos estão espalhados em toda projeção de forma discreta, mas certeira e embalados com um humor sarcástico do protagonista.

Contudo, Castanha por vezes tem o seu desempenho eclipsado pela atuação de sua própria mãe, que atua naturalmente e nos emociona quando toca no assunto com relação ao seu ex-marido, que atualmente se encontra no asilo. As cenas em que mostram o pai de Castanha no asilo são poucas, mas falam por si e correspondem um pouco sobre o tipo de relação que ambos tinham um com o outro. Aliás, essas cenas também representam um pouco sobre o passar tempo, que para o bem ou para o mau ele corrói e destrói tudo que existe.

A imagem de Castanha transformista na boate gay, mesmo conduzindo o seu público com o seu bom humor, não esconde o fato de sua imagem ser uma figura pálida do que já foi um dia. Os traços do seu rosto, emoldurado por uma pesada maquiagem, tentam inutilmente esconder as marcas do passado, do seu presente e de um futuro indefinido. Talvez isso seja de propósito, sendo talvez uma representação cansada de sua luta perante uma sociedade que se encontra indefinida, não sabendo para aonde vai e ficando presos por valores que se encontram hoje falidos.

Valores esses que talvez deixem o mundo em que Castanha vive um tanto que nebuloso. Querendo ou não, ele pertence há uma sociedade cada vez mais conservadora e alienada com políticos formados por pastores e que usam a palavra da bíblia como arma contra uma fatia de público que vai contra a maré dessa sociedade hipócrita. Mesmo com os percalços, os minutos finais nos dizem para não desistir e levarmos tudo pelo bom humor, mesmo quando isso parece não ter fim.

Cru, simples e direto, Castanha é isso e muito mais. Levando-nos a questionar o mundo que vivemos e fazendo nos identificar e nos questionar a nós mesmos.


10 de outubro de 2014

Top 5 Heróis Escoceses nos Cinemas

O último dia 18 de setembro tornou-se emblemático na história da Escócia e do próprio Reino Unido. Cerca de 4 milhões de escoceses foram às urnas para votar em um referendo sobre a independência ou não do Reino Unido da Inglaterra. No fim, o “não” venceu com 55% dos votos contra 45% da população que disseram “Sim” ao fim da dependência Britânica.

Apaixonado pela história, cultura e geografia da Escócia, esse assunto me abalou muito, mas preciso ressaltar que o que fez eu me interessar tanto pelas “terras altas” foi a fotografia e as histórias de heróis escoceses nos cinemas. Portanto, fiz aqui um “Top 5” heróis escoceses dos cinemas:
5 – Merida, a guerreira do filme Valente (Brave, 2012) quebrou tabus da Disney ao surgir como uma princesa moderna que prefere seguir os passos do pai aos desmandos da mãe, que espera que ela seja uma moça recatada e preparada para ser uma boa esposa. Merida (voz de Kelly MacDonald) mostra que as mulheres escocesas fazem o seu próprio caminho.
4 – Bond, James Bond: O melhor agente secreto de todos os tempos, a serviço da coroa britânica foi retratado por seu criador, o escritor Ian Fleming, como um órfão escocês, natural do vilarejo de Glencoe. No cinema são mais de 20 filmes, mas Sean Connery foi o único ator escocês a interpretá-lo e é, até hoje, considerado o melhor 007 de todos os tempos.
3 - Rob Roy (1995) não fez muito sucesso, apesar de ter uma bela fotografia e grande elenco. Na história real, Robert Roy MacGregor era um católico das Terras Altas que aderiu ao levante jacobita, mas após a derrota para o protestantismo, ele tornou-se uma espécie de Robin Hood escocês, roubando dos ricos para dar aos pobres. Brilhantemente interpretado pelo sempre excelente Liam Neeson.
2 - Connor MacLeod, o guerreiro imortal interpretado por Christopher Lambert na franquia “Highlander” que começou em 1986, colocou a Escócia em voga nos cinemas pela espetacular fotografia das highlands. Mostrou que não é tão fácil derrubar um guerreiro escocês... talvez somente cortando sua cabeça ...There can be only one!
1 - William Wallace é, de longe, o maior símbolo da luta pela independência da Escócia e inspiração no mundo todo. O herói do século XIII teve sua história fantasiada magnificamente pelo arrebatador Coração Valente (Brave Heart), em 1995, vencedor de 5 Oscars. Interpretado e dirigido pelo australiano Mel Gibson, o filme comoveu tanto a população que especialistas apontam-no como o principal catalisador deste movimento de repensar a independência e que culminou neste referendo.

Pelo jeito, a luta continua pelo grito de Liberdaaaaaaade! Até a próxima.

7 de outubro de 2014

GAROTA EXEMPLAR (Gone Girl, 2014)

Vivemos atualmente numa realidade em que o modelo de casamento se encontra falido. A mídia cada vez mais se torna um vampiro esfomeado em sugar o sangue de determinado assunto até ultima gota. São comuns esses dois assuntos se cruzarem na TV, pois inúmeras celebridades vivem casando, terminando e se tornando uma fonte de inúmeras fofocas inesgotáveis.

No mais novo filme de David Fincher (de Clube da Luta) se vê um retrato desses dois assuntos pintados em nosso mundo contemporâneo e o resultado não poderia ser dos mais engenhosos. Baseados na obra de Gillian Flynn (que também assume o papel de roteirista), assistimos ao casal de protagonistas Nick e Amy Dunne. Após um casamento dos sonhos, eles se veem obrigados a deixar a vida em Nova York para mudarem para Missouri após a notícia de que a mãe de Nick está com câncer. No dia em que comemoram o aniversário de casamento, o sujeito retorna para casa para encontrar o lugar revirado. Ele não consegue encontrar a esposa e logo chama a polícia.

É aí que o filme nos presenteia com o resultado de uma soma de inúmeros ingredientes: casamento falido + crime + mídia = circo inesgotável, onde todos desejam se beneficiar no assunto, tornando-se um verdadeiro reality show de proporção nacional. O filme não cai na vala comum, assim como foram determinados filmes de suspense, mas sim se constrói uma enorme cebola, na qual vai se descascando e fazendo com que cada pensamento que nós construímos no decorrer do filme vai para o ralo. Isso acontece graças ao fato do filme ir e voltar no tempo, se criando uma verdadeira teia de eventos que vai revelando a verdadeira natureza do casal central.

Falar mais sobre o que acontece no decorrer do filme seria como estragar inúmeras surpresas maravilhosas e imprevisíveis. O que eu posso dizer é que novamente o cineasta acertou na mosca em repetir a sua parceria com o montador Kirk Baxter e com os compositores da trilha sonora, Trent Reznor e Atticus Ross: responsáveis pelo belo trabalho que criaram em A Rede Social, Baxter, Reznor e Atticus mostram uma verdadeira aula de como se faz a música casar perfeitamente com uma montagem frenética, contagiante e que dá vontade de gritarmos um “olé”.
Isso melhora ainda mais, quando a trama foca num determinado flashback (moldado também pela bela fotografia de Jeff Cronenweth), onde a protagonista é Amy Dunne. Trilha, montagem e mais o desempenho da atriz Rosamund Pike (de Orgulho e Preconceito) nos brinda no que talvez seja o melhor momento do filme (e talvez do ano). Só por essa sequência Rosamund Pike nos brinda com um desempenho único, em que mostra a real natureza de sua personagem e que nós da uma dica que o melhor estará por vir no decorrer do filme. Depois disso, não indicar a atriz para o próximo Oscar seria a maior injustiça dos últimos anos.

Ben Affleck, por sua vez, não fica muito atrás. Renascido na carreira após o premiado Argo, o astro nos presenteia com uma interpretação competente, em que o seu jeito pouco expressivo se encaixa com o seu personagem, em que por muitas vezes não sabe lidar com a situação em que está vivendo. O circo erguido pela mídia com relação a sua imagem e sua esposa, lhe colocam em um dilema em querer se beneficiar com aquilo tudo, ou desvencilhar da sua imagem cada vez mais arranhada e posteriormente suspeita.

Os coadjuvantes não deixam a desejar e todos possuem desempenhos marcantes. O que mais se destaca entre eles é realmente Neil Patrick Harris (de Tropas Estelares) que, ao interpretar um antigo amor de Emy, ele se apresenta como uma pessoa patética, mas que não se deve subestimá-la. Pode-se dizer que ele, mesmo de forma indireta, irá colocar ponto final em todos os eventos mostrados na trama, mas não espere final feliz por nenhuma das partes.

O final é digno de nota, pois ele sintetiza o lado hipócrita, tanto de uma mídia que vende uma imagem fictícia de uma pessoa, como também o desejo louco de passar a imagem do casal perfeito no mundo de hoje. Tem-se então um retrato de pessoas presas pela sua imagem, que embora não desejam estar naquela posição, dizer também que não quer seria um verdadeiro um tiro no pé. Pessoas que alimentam a mídia, mas ao mesmo tempo se alimentam por ela. David Fincher acerta novamente.


2 de outubro de 2014

Era Uma Vez em Nova York (The Immigrant, 2013)

Embora não muito conhecido pelo público geral, James Gray é um dos poucos casos do cinema da Hollywood atual que não se entrega facilmente em fazer filmes para massa, mas sim vai por um lado mais autoral. De Donos da Noite para Amantes, Gray já demonstrava total preocupação, não somente para contar uma boa história como também criar algo plasticamente belo. Era Uma Vez em Nova York é mais ou menos isso: edição de arte e fotografia (me lembrando de O Poderoso Chefão 2) bem requintada, aliada por uma trama envolvente.

O épico de Gray conta a história do imigrante em busca do sonho americano, mas que no fim se depara com a realidade crua, para não dizer um pesadelo. Para tanto, conta com uma Marion Cotillard (Ferrugem e Osso) que nos convence do início ao fim que é uma polonesa e ao mesmo tempo passando um desespero contido e dando lugar para uma força e fé que a faz ir em frente. Porém, quem brilha realmente é Joaquin Phoenix (A Vila), como o cafetão que se apaixona por ela, mas que, ao mesmo tempo, a usa para obter certo lucro. Seus momentos em que o seu personagem age de uma forma imprevisível em muitos momentos da trama são de longe os melhores momentos do filme.

Para completar temos Emil, interpretado por Jeremy Renner (Vingadores), um mágico ilusionista de personalidade gentil, que passa certa esperança para a protagonista e ao lado de Bruno, parece representar os dois lado da mesma moeda com relação ao que Ewa busca. Um representa a dura realidade de um imigrante, que precisa comer o pão que o diabo amassou para sobreviver, enquanto Emil representa a esperança vinda do horizonte e o desejo principal de Ewa de ser feliz. O filme resume o fato de uma realidade crua de uma cidade que se diz o lugar das oportunidades, mas que prevalece o seu lado decadente, onde as pessoas não são boas e nem más, mas que por vezes colocam pra fora o pior do seu ser ao tentar sobreviver.
A já citada fotografia é algo que nos encanta, com tons pastel, que por vezes sintetizam uma época plasticamente dourada e nos brinda com cenas que mais parecem pinturas. Há planos fechados e esta combinação força a ideia de claustrofobia vivida pelos personagens, e talvez este seja o intuito. Ao fim, depois de tantas cenas em ruas fechadas, pouca natureza e bastantes prédios, ver o mar é algo que nos faz respirar, nos dá fôlego. O último plano em especial é muito bonito e representa muito bem isso.

Com uma belíssima reconstituição de época digna de indicação ao Oscar, Era Uma Vez Em Nova York faz jus ao titulo em português, pois os sonhos podem até não se realizar no lugar que se dizia o caminho da prosperidade, mas isso não significa que os personagens não devam mais seguir em frente com os seus objetivos e ideais que acredita em seu intimo.

1 de outubro de 2014

Bem-Vindo a Nova York (2014)

Assisti pouco ou quase nada da filmografia de Abel Ferrara (Vicio Frenético), sendo que o único filme que eu vi, eu acho, foi à refilmagem de Invasores de Corpos, que foi um verdadeiro fracasso, o que fez então ele voltar a fazer filmes menores. O cinema independente foi um lugar próspero durante os anos 90 e fez com o que o cineasta tivesse total liberdade em fazer o que bem entendesse com seus filmes, como o inquietante Vícios. No seu mais novo filme Bem-Vindo à Nova York, a obra é um verdadeiro cartão de visita para pessoas (como eu) que não conheciam a sua filmografia, onde ele não poupa ninguém, nem mesmo os olhos do espectador que assiste o vício do protagonista (Gérard Depardieu), que é descontrolado em fazer sexo compulsivamente, pois acredita que, tendo a faca e o queijo na mão, pode fazer o que bem entender.

Baseado em fatos verídicos, o cineasta nos apresenta todo o glamour dos EUA, mais precisamente de Nova York, onde (aparentemente) todos são muito bem-vindos, com a propaganda sobre a terra das oportunidades escancarada, o que faz que todos acreditem que possam fazer o que bem entender. Talvez isso tenha pensado o protagonista Mr. Devereaux (Gérard Depardieu), poderoso agente da economia mundial que não poupa esforço nenhum em satisfazer o seu apetite sexual, seja ao lado de amigos, colegas de trabalho ou alvos para um futuro bom negócio. A primeira meia hora de filme é basicamente isso: sexo, orgia, ganância, corrupção e tudo batido num imenso liquidificador, onde o universo do protagonista transborda, nos fazendo não desejar limpar aquela sujeira, só para ver até aonde vai dar.

Mas a partir do momento que ele tenta se aproveitar de uma camareira, seu porto seguro começa a desmoronar, ao dar de cara com a justiça do país das oportunidades. Neste momento, Gérard Depardieu nos brinda com o seu melhor momento no filme, onde não se intimida em respirar a todo o momento que nem um porco encurralado, que saiu do seu chiqueiro de prazer para então cair na frigideira para ser assado. Encarando o fato de que seus recursos em mãos não podem mais comprar ninguém, ele recorre então ajuda à sua mulher (Jacqueline Bisset, soberba), que fica furiosa pela situação de seu marido, mas que irá ajudá-lo mesmo no contra gosto.

A partir do momento que entra a esposa em cena, presenciamos um verdadeiro duelo verbal entre o casal onde ambos, no fundo, estão cansados um do outro, mas que continuam juntos unicamente por interesses ou para manter as aparências já bem arranhadas. Não importa qual poderio deles, pois no final das contas é um casal em crise, que já deu o que tinha que dar, mas que ainda não encontraram um caminho para trilhar separadamente. Bisset e Depardieu estão em total sintonia, representando então um verdadeiro retrato do casal contemporâneo em crise e sufocado por meias verdades.
Mesmo com todos os erros cometidos, é interessante observar que o cineasta com o seu roteiro bem escrito, tente nos convencer que há uma justificativa pelos atos cometidos pelo protagonista. Por vezes dá a entender que ele é uma vitima de uma sociedade que se alimenta da hipocrisia, ou pelo fato de unicamente ter nascido em berço de ouro e tendo ganhado tudo na boca. Em pelo menos dois momentos únicos, o protagonista nos olha, nos obrigando a julgá-lo e encontrar nele alguma esperança para um futuro próximo.

Com uma fotografia elegante, porém sombria, no qual sintetiza aquele universo em que o protagonista vive, Bem-Vindo a Nova York é um filme que escancara o vício dos poderosos, em que acham que podem fazer o que bem entender no mar cheio de dinheiro. Mas a pergunta que fica no ar no final do filme é esta: quando a poderosa baleia encalha nesse mar verde e ganancioso devemos ser misericordiosos?


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