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15 de julho de 2015

JAUJA (2014)

Quando o cinema nasceu, era praticamente uma espécie de quadros em movimento, em que o espectador simplesmente apreciava as imagens que soltavam na tela, mas quase ou sem nada de tramas para contar. Claro que ao longo do tempo isso mudou, graças aos pioneiros da sétima arte (como Georges Méliès) que introduziram tramas e fizeram com que o cinema evoluísse e se tornasse o que é hoje.

Porém, existe atualmente uma tendência de retrocesso, mas no bom sentido, onde cada vez mais se percebe que há filmes que usam velhos recursos para se contar uma história. Até pouco tempo, George Miller apresentou a sua obra prima Mad Max: Estrada Perdida, onde o seu prólogo possui um movimento de imagem de alta velocidade, cuja intenção era remeter aos primeiros filmes filmados do final do século 19. O espanhol Branca de Neve, o francês O Artista e até o nosso filme gaúcho A Festa de Margarette, foram rodados em preto e branco, e mudo, fazendo a gente relembrar as primeiras décadas do cinema no século 20.

São velhos recursos, mas que conseguem criar uma história, mesmo quando ela fica por vezes em segundo plano e dando destaque à parte técnica. Na co-produção de vários países (incluindo até mesmo o Brasil), Jauja, do diretor argentino Lisandro Alonso, a trama, sobre a cruzada de um pai (Viggo Mortensen) em busca de sua filha desaparecida (Viilbjørk Malling Agger) é o que faz a trama se movimentar. Contudo, essa cruzada se encaminha para o segundo plano, pois o que nos distrai enquanto estamos assistindo é a forma como foi filmado.

Filmado em belas paisagens do país dos nossos hermanos, o filme tem assinatura do fotógrafo Timo Salminen que criou cada cena para que se parecesse com um quadro pintado, mas em movimento. Diferente dos formatos de hoje, o filme não possui tela larga, mas sim uma imagem quadrada, remetendo aos filmes do final do século 19 e imitando até mesmo as limitações dos movimentos daquelas câmeras de antigamente. Com isso, há muitas cenas paradas, onde somente vemos os personagens dialogando ou se misturando com a natureza em volta.

Isso exige, é claro, um esforço ou até mesmo paciência do cinéfilo que assiste, mas, comprando a ideia, irá apreciar um filme diferente do convencional, cuja suas imagens têm mais a dizer do que as próprias palavras ditas dos personagens principais. Falando em imagem, vale lembrar que o filme é carregado de simbolismo, por vezes não bem decifrado. Esses símbolos reaparecem nos minutos finais da trama e esclarecem (ou não) o que ocorreu na verdade nas quase duas horas de projeção.

Falando no seu final, ele me fez relembrar de imediato dos minutos finais do clássico A Idade do Ouro, do cineasta Luis Buñuel, mas que, embora sejam finais (aparentemente) diferentes, eles possuem uma quebra na trama, da qual ficamos nos perguntando pelos quais motivos levaram para acontecer isso. Como eu disse acima, o que nos foi apresentado no decorrer da trama é o que nos pode dar as respostas para o seu final, mesmo quando os seus inúmeros símbolos levantam mais perguntas do que respostas para nós.

Independente de a pessoa gostar ou não, Jauja é uma pequena experiência cinematográfica, da qual nos faz voltar no tempo, e observar como velhas fórmulas de filmagens ainda não são obsoletas, mas sim frescas para os novos olhos.


8 de julho de 2015

O CRÍTICO (El crítico, 2013)

O Crítico é uma boa e curiosa comédia romântica argentina, sendo o primeiro filme do crítico de cinema Hernán Guerschuny, que já era conhecido há 20 anos escrevendo para a revista Haciendo Filmes. O filme, por vezes, é uma despretensiosa piada com relação à imagem de um crítico de cinema que ranzinza, mal humorado e que odeia comédias românticas. Durante duas décadas, o protagonista Victor Tellez (Rafael Spregelburd), é um famoso crítico de um jornal que, há um bom tempo, não faz uma crítica no jornal que mereça 5 poltronas (bonequinho ou estrela como a gente conhece).

O filme nos convida para conhecer melhor Victor, que entra e sai de cabines com seus colegas do ramo. Curiosamente, parece que eles não prestam mais atenção aos filmes que assistem, mas sim dormem, comem e falam mal da obra a todo o momento, como se a profissão já não fizesse muito sentido e acabam vivendo no piloto automático. E, após as sessões, vão a um ponto de encontro, onde continuam a falar mal, comer e desprezar as obras que assistem que, para eles, não oferecem mais nenhuma trama original.

Quando vai procurar um novo lugar para morar, Victor dá de encontro com Sofia (Dolores Fonzi), uma espécie personagem dos filmes de comédia romântica que ele tanto odeia. Entre os dois, começa então uma curiosa história recheada de todos os estereótipos que Victor não gosta: câmera lenta, música clichê chuva e fogos de artifício. A intenção é clara da produção em querer prestar homenagem a um dos gêneros mais previsíveis da história do cinema (comédia romântica), e devido a isso, o filme se divide em momentos genuinamente inesperados e divertidos, para momentos propositalmente previsíveis e fazendo com que não tenha uma exata direção a tomar no decorrer da trama.

Com isso, alguns personagens acabam por ser mal aproveitados: o trio de críticos é bem divertido (um deles é a cara do cineasta Michael Moore) e a personagem da sobrinha também poderia ter rendido muito mais, mas infelizmente fica no meio do caminho e não se sabe para que veio na trama. Felizmente o filme nos brinda com muitos diálogos geniais, como a singela conversa entre o protagonista e um dos seus amigos críticos, que assume ser nerd desde sempre.

Claro que é uma obra que terá muita força entre os fãs da sétima arte e até mesmo para aqueles que seguem a profissão de crítico, mesmo quando eles são representados de uma forma estereotipada e que tem pouca a ver com a realidade nossa. Curiosamente, o ator Rafael Spregelburd fez uma participação no filme O homem ao lado, e talvez isso explique a brincadeira mostrada sobre o buraco que fazem na parede do protagonista. Infelizmente essa piada somente funciona quem assistiu a aquele filme.


5 de maio de 2015

LEVIATÃ (Leviathan, 2014)

Policiais e funcionários corruptos, um presidente da câmara prepotente e mafioso, um sistema judicial crítico e distante, uma igreja que abençoa isto tudo, e um cidadão perdido nesta rede kafkiana que só tem a vodka para ajudar a esquecer o desespero. Bem-vindos à Rússia moderna. Mas será só na Rússia? Se houvesse um banqueiro, o retrato iria parecer ainda mais familiar.

Andrey Zvyagintsev utiliza o drama da luta inglória de um cidadão comum contra o sistema - uma espécie de "David contra Golias" - como base para efetuar uma sátira política sem qualquer condescendência à decadente Rússia contemporânea, asfixiada por um onipresente e totalitário Estado tirânico e corrupto. E atira-se de pés juntos, expondo, de forma metafórica (os simbolismos estão por toda a parte, inclusive no próprio titulo, uma vez que leviatã era uma criatura mitológica que se assemelhava a um grande polvo ou baleia), com um humor negro e sarcástico sublime, as promíscuas e imorais interligações tentaculares entre o poder político, judicial e religioso (não poupando nenhum extrato social, afinal todos fazem parte e/ou são coniventes de algum modo, mais que não seja pela sua passividade, com a "máquina instalada").

Estamos, portanto, perante um filme duro e intenso (contudo, sutil), sem réstia de esperança e/ou sem qualquer mensagem edificante (mas o mais angustiante é que este acaba por constituir uma quase- parábola universal. Um desmoronamento de uma Rússia sem ética, moral, valores ou justiça. Andrey Zvyagintsev trouxe ao cinema um irônico e provocador retrato de uma sociedade em crise e decadente, onde o poder, a religião, a política e as influências dominam a lei e as decisões.


7 de abril de 2015

Era Uma Vez Em Anatólia (2011)

Ao assistir Era Uma Vem em Anatólia no a recém reinaugurado Cine Capitolio de Porto Alegre, é de se lamentar que quase nada veio para cá do cineasta Nuri Bilge Ceylan. Tanto CLIMAS (2006) quanto 3 MACACOS (2008), foram obras que eu vi somente em DVD. Trabalhos que não tiveram tanta aceitação por parte da crítica que, em geral, achava seus trabalhos ultra-estilizados. Porém, creio que depois de Era Uma Vez Em Anatólia, vale uma conferida na obra anterior desse cineasta cheio de criatividade. 

Este seu filme mais reconhecido, com seus longos, mas preciosos 150 minutos de duração, apresenta uma narrativa sem pressa alguma e carregada de um clima de apreensão, com a morte rondando a trama e tornando a experiência incomum. A maior parte de sua metragem envolve um grupo de policiais na busca e um cadáver, mas para encontrá-lo, recorrem ao possível assassino. O corpo está enterrado em algum lugar da zona rural da cidade de Keskin que, aliás, o lugar é belamente fotografado em scope e cada tomada externa parece uma pintura em movimento.

A busca pelo cadáver não é tarefa das mais fáceis durante a trama. O assassino, cujo rosto não esconde uma vida marcada, pode estar jogando conversa fora com a polícia, como pode estar como ele mesmo diz, confuso com relação ao local em que o corpo foi enterrado. Enquanto isso, tanto o médico legista, quanto o promotor e o próprio homicida ganham momentos de pausa e conversa que fazem o filme ganhar inúmeras camadas subliminares. São momentos que acabam sendo tão inspirados quanto a cruzada deles em busca do corpo.

Há um momento interessante, que é quando todos os homens são hospedados na casa de um amigo em comum de um deles e ficam pasmados com a beleza de uma linda jovem, até então a única mulher a aparecer durante a projeção. Ela é como uma jóia escondida num território selvagem. Era Uma Vez Na Anatólia, talvez tenha a intenção de ser uma metáfora de seu próprio país (Turquia), dirigindo no escuro, tendo dificuldades de desenterrar o seu próprio passado e de caminhar para um futuro melhor, em que o país se tornaria tão moderno quanto os seus irmãos mais bem sucedidos da Europa.

No entanto, para isso, ainda precisam lutar contra as próprias superstições e a falta de habilidade profissional, representado principalmente pelos policiais despreparados com relação ao que estão encarando. Mas o filme é muito mais do que isso. Trata-se de uma das obras-primas desta década e que certamente merece ser revisto, repensado e dissecado diversas vezes para melhor compreende-lo.


2 de março de 2015

Nostalgia da Luz (2010)

O documentário chileno Nostalgia da Luz nos brinda como cenário principal o Deserto do Atacama, onde astrônomos se utilizam da transparência do céu para explorar a infinitude do universo em busca de vida extraterrestre. Paralelamente, ocorre outro tipo de busca. O longa-metragem também debate a procura, por um grupo de mulheres, de corpos de parentes desaparecidos durante o período da severa ditadura do general Augusto Pinochet. Também é neste cenário que arqueólogos pesquisam os vestígios das civilizações pré-colombianas, como pinturas rupestres e fósseis.

Nostalgia da Luz utiliza-se de composições poéticas, explorando, de maneira singular, metáforas e comparações. O documentário explora constantemente o paradoxo existente entre o moderno e o passado. Isso é evidenciado pela própria composição do ambiente cinematográfico, marcado pelo Deserto do Atacama que carrega o passado das antigas civilizações e elementos modernos inseridos nesse cenário, isto é, os centros de observações astronômicas. Percebe-se, nitidamente, o emprego de planos estáticos e meditativos que realçam a beleza de objetos prosaicos. Além disso, o filme lida com a obsessão humana pelo passado e discute a contradição que há no fato de ignorarmos, comumente, nossa História recente.

Valendo-se de composições de imagens que prendem a atenção do espectador, Nostalgia da Luz surpreende através de planos inspiradíssimos, marcados pela representação ímpar do espaço sideral, bem como de fotografias justapostas dos desaparecidos políticos. É importante lembrar que, assim como o conteúdo do filme, as imagens também se comunicam através das metáforas e das comparações. Ao trazer a superfícies da Lua em uma das tomadas, Guzmán sugere a representação de um crânio humano.

O filme é espetacular e fundamental para a reflexão de todas as sociedades humanas. Os constantes questionamentos, aos quais o ser humano está submetido, são evidenciados ao longo do documentário. Ademais, o filme oferece uma fantástica visão filosófica sobre a existência e a condição humana, a qual é, durante todo o longa-metragem, comparada com a infinitude, as dúvidas e o mistério do cosmos.

A produção cinematográfica chilena faz uso de uma sensibilidade única, que permeia tanto a narração pausada e cuidadosa como a própria composição fotográfica e sonora do longa. Nostalgia da Luz abre portas para a discussão, para a reflexão e, sobretudo, para problematizar o verdadeiro sentido da nossa existência e preocupações como seres humanos.

18 de fevereiro de 2015

DOIS DIAS, UMA NOITE (Deux jours, une nuit, 2014)


Os diretores e irmãos franceses Jean-Pierre e Luc Dardenne já são reconhecidos internacionalmente por seus filmes extremamente artísticos. Esse ano, pela primeira vez, eles viram uma de suas obras ser, merecidamente, indicada ao Oscar. E não importa que isso seja alcançado somente por causa de Marion Cotillard. 

É complicada a situação da protagonista Sandra (Marion Cotillard) que após um período afastada do trabalho por motivos de saúde se depara com o desemprego eminente. Ela é motivada por uma colega de trabalho e marido a lutar para manter esse emprego. Então ela acaba indo de porta em porta pedir para esses colegas que votem a seu favor para que assim permaneça com seu emprego, mas para isso eles terão que abrir mão do abono salarial generoso que para muitos é uma salvação. 

É angustiante ver ela ter que se humilhar para pedir isso, ela tem que se desprender de seu orgulho em cada porta que se abre ou fecha, afinal ela entende a posição deles, mas precisa lutar pela sua também. A jornada da personagem entre negativas e apoios é sofrida, violenta e reveladora. Sandra encontra apoio onde menos imaginava e indiferença onde sempre teve certeza de acolhimento. Conceitos de solidariedade, coletividade e empatia (a difícil tarefa de se colocar no lugar do outro) acompanham a história que em raríssimos momentos nos levam ao riso.

O contínuo processo de cura dos deprimidos a travar uma luta diária por sua existência parece ser o objetivo da personagem. O destaque fica pelo papel amoroso e companheiro de seu marido, seu grande protetor e incentivador. Notamos no filme os poucos amigos de Sandra, pouquíssimos por sinal, que se mostram realmente anjos da guarda, tal como na vida real. 

Com uma Europa em crise nos tempos atuais, o grande mérito dos irmãos Dardenne é trazer à tona essa história que beira ao absurdo, mas que pode realmente acontecer a todos nós e de diversas formas algum dia.


12 de fevereiro de 2015

MISS VIOLENCE (2013)

Cortinas semiabertas, lâmpadas amarelas e carpetes muito limpos criam a cena: uma família de classe média, em algum lugar da Grécia, dissimula um cotidiano de muita violência em tons pastéis e álbuns sorridentes. Miss Violence, o último filme grego a ganhar destaque nos festivais internacionais, é pesado e discreto.

Dirigido por Alexandros Avaranas, Miss Violence é carregado de dor e sofrimentos internos. O mal-estar é construído de maneira progressiva pelo roteiro bem desenhado e argumentos bem articulados, apresentados em uma ordem cronológica surpreendente. Impactante seria uma boa descrição.

O cinéfilo assume um papel de coadjuvante nesta produção, pois sente o clima pesado o tempo todo. A perturbação aflora ao longo do filme e o mistério dá lugar ao asco. A impotência e a falta de esperança de uma sociedade são expostas por uma família fora do convencional. Aparentemente uma família grega comum, com aspectos tradicionais, é comandada pelo patriarca. A filha e suas netas apresentam, ao longo da película, aspectos conflitantes. Nestes pontos, o mal estar vai sendo construído através da figura autoritária e machista do chefe da família.

Conforme a trama de Miss Violence segue adiante, o drama atinge níveis irreversíveis. O filme caminha crescente até chegar ao pico. O extasiante é que este extremo é mantido por muito tempo. Até o final da história, a impotência, o desespero e outros sentimentos explodem em lindos planos com bela fotografia.

O primeiro mérito do filme que deve ser destacado está em sua abertura, que já inicia a narrativa com uma cena de puro impacto. O ponto de reviravolta é sonorizado pela voz de Leonard Cohen em Dance me to the end of love, que prenuncia o suicídio da menina Angeliki, acontecimento que começa a denunciar o pacto de silêncio que a família guarda há décadas. A construção quase geométrica da cena segue no filme inteiro. Os enquadramentos são muito bem calculados, com muitos planos abertos que mostram a impecabilidade ordeira da direção de arte.
O conjunto de planos com trilhas adequadas passam contrastes e diversos significados para cada ato da tragédia familiar. A impotência exposta gera ações e reações que surpreendem até o fim do longa. Já a impressão do espectador é clara. O incomodo presente chega a impedir elogios no fim das sessões. Justamente por isso, a película atinge seu objetivo e impressiona, causando mal estar latente.
O longa funciona como uma denúncia, sendo mais uma forma de escancarar esta violência silenciosa do que uma busca investigativa por motivo, culpado, e cena do crime. Mesmo trazendo cenas explícitas perto do final, ele consegue ser ainda mais brutal com portas se fechando, rezas na mesa do jantar e com uma câmera parada no corredor de um apartamento. Treinar bem os atores é um dos méritos que garantiu a Avranas o prêmio de melhor cineasta. No lugar de criar um drama cheio de choros, gritos e gestos pantomímicos, os atores buscam a eliminação de qualquer fala em tom desregular, gestos efusivos e expressões fortes. A postura da família, que funciona de maneira quase mecânica e muito bem pensada, causa sempre estranhamento e é sempre evidenciada com a espontaneidade de personagens que não fazem parte do núcleo central.

Miss Violence é pesado, mas não procura escandalizar. A aparente normalidade que o filme vende não deixa a história ser lida como absurda, no sentido de excepcional. Apesar de toda a violência, tem o cuidado de não criar um distanciamento entre o público e os personagens, permitindo que criemos empatia e instigando a discussão para fora do cinema. O que ele tem de absurdo consegue ser transposto e pensado para realidades mais comuns, mas não menos violentas.


5 de janeiro de 2015

A Família Bélier (La Famille Bélier, 2014)

Clichês de filmes musicais onde o adolescente descobre um talento, canta pela escola, todos aplaudem e no final a paixão se torna amor e todos vivem felizes para sempre. Quem nunca viu um filme nesses moldes? É bem comum e um tanto cansativo pela grande quantidade de filmes desse gênero, mas quando um deles te surpreende pelos pequenos detalhes que mudam totalmente do clichê?

Filmes franceses tendem (em sua maioria) a serem lentos, de tramas e enredos cansativos ou extremamente apelativos. Surpreenda-se de novo: Neste comédia-drama-musical o que menos há são momentos de "pausa" na história para ficar exibindo as belas paisagens francesas ou fazendo apelações desnecessárias em algum aspecto da história. Não sou um expert em cinema francês, porém me agradou a combinação feita pelo diretor Eric Lartigau, que com uma visão de cena excelente, juntou história + belas paisagens + atuação excepcional dos atores.

Vamos ao clichê: Paula (Louane Emera) é uma adolescente que vive na fazenda com os pais. Estuda longe e tem sua melhor amiga, Mathilde (Roxane Duran). Elas estão iniciando um novo ano letivo e decidem escolher uma matéria "livre" para cursarem juntas. A escolha das duas foi o coral da escola, pois o galã da escola Gabriel (Ilian Bergala) escolheu o coral. Ela em pouco tempo destaca-se como um talento musical e é convidada para fazer um teste e estudar música em Paris.

Logo a história parece pronta, mas vamos incluir o detalhe. Os pais de Paula são surdo-mudos. É necessário explicar toda a complexidade por trás disso? Paula é a única que conhece tanto a fala quanto a linguagem de sinais, sendo ela a responsável por se comunicar com a comunidade e executar algumas tarefas administrativas da fazenda. E pensem: os pais dela nunca poderão ouvi-la cantar, não poderão apreciar o dom da filha

Outro contraponto no clichê é que seu pai, Rodolphe (François Damiens) está insatisfeito com a política do prefeito local e decide se candidatar, mas "como um surdo poderia ouvir os problemas da comunidade"? A trama toda gira em torno desses pilares, que não a torna dramática o bastante para ser um drama ou engraçada o bastante para ser uma comédia. O filme mistura os problemas e as visões dos personagens. Lógico que nem tudo é perfeito, pois algumas histórias passam despercebidas e estão lá só para fazer rir ou cutucar a sociedade pelos problemas dos surdos e mudos. 

Talvez não baste explicar as dificuldades da família ou os problemas de toda adolescente (desde as amizades na escola, a primeira menstruação, os amores impossíveis).... Prefiro não estragar a surpresa e apenas recomendo que vejam A Família Bélier. Como disse no começo, o filme mistura bem aquilo que é devido às artes e expõe, de maneira criativa e bela muitas coisas que normalmente não pararíamos para pensar. É de arrepiar, chorar, rir e se emocionar. 


28 de outubro de 2014

RELATOS SELVAGENS (Relatos Salvajes, 2014)

Imagine uma pessoa em seu escritório, que fica na sua e leva o seu serviço a sério. O problema é que na sala ao lado tem duas secretárias que, quando o chefe não se encontra, começam a conversar em demasia e falar de coisas por vezes alienadas. Isso acaba estressando-o, ao ponto dele desejar matá-las das mais diversas formas possíveis.

Claro que todo ato há consequências e por mais que a pessoa tenha desejo de botar para fora a raiva que sente, sempre terá algo em seu interior para frear. Mas o que aconteceria se a pessoa dissesse “dane-se o mundo” e colocasse para fora o seu lado mais obscuro? A resposta se encontra no mais novo filme argentino Relatos Selvagens!

Dirigido por Damián Szifrón (Tempos de Valente), o filme apresenta seis seguimentos: passageiros de um avião começam a descobrir que todos têm ligação com o piloto, que por sua vez os culpa devido ao seu passado traumático; garçonete descobre que seu cliente foi alguém que arruinou o seu passado; dois motoristas se cruzam, se desentendem na estrada e a relação nada amistosa os leva para um caminho sem volta; engenheiro de implosões se revolta com as multas que ele vive levando; para salvar o filho, milionário tenta colocar um falso culpado em cena de atropelamento; noiva descobre justamente na festa de seu casamento, que o seu noivo tem uma amante.

Todos os seguimentos da trama são na realidade histórias das quais nós cruzamos todos os dias, ou que nós mesmos já fomos os próprios protagonistas. A diferença está no fato de alguns de nós nunca chegarmos a esse ponto do qual que os personagens chegam, mas acabamos aplaudindo mentalmente determinada pessoa quando comete determinados atos, dos quais não cometemos por falta de coragem ou devido as suas consequências. Pegamos por exemplo o personagem de Ricardo Darín, que, quando chega ao fundo do poço ao alimentar ao máximo o sistema aonde vive, decide se vingar da maneira mais imprevisível e as pessoas à sua volta, que antes passavam pelo mesmo calvário, o aplaudem como herói.

É um filme que possui a mesma mensagem do já clássico Um Dia de Fúria estrelado por Michael Douglas, mas que aqui mira e acerta todos os níveis de nossa sociedade contemporânea que, por vezes, se disfarça com máscaras cada vez mais mentirosas. Por mais que nos culpemos, lá no fundo do nosso subconsciente, não tem como não rirmos de determinadas tramas que sintetizam exatamente o que passamos, vemos e reprovamos. De todos os seguimentos da trama, a da noiva (Erica Rivas, espetacular), que por vezes nos lembra algumas das protagonistas dos filmes de Pedro Almodóvar, desde já é disparada a melhor.

Falar desse que é, na realidade, o último seguimento do filme, estragaria inúmeras surpresas brilhantemente bem filmadas. O que posso dizer é que ele reúne drama, romance, tensão, suspense e, por incrível que pareça, momentos "gore" (sanguinolentos). Um seguimento que é uma representação nenhum pouco disfarçada sobre o modelo do casamento, que atualmente se encontra falido.

Mas para aqueles que ainda acreditam que esse modelo de união ainda funcione e sonhe em se casar de véu e grinalda, adianto que a trama termina de forma épica, otimista, mas que corresponde com a proposta que o filme quer passar para o cinéfilo que assiste. É claro que haverá alguns críticos dizendo que Damián Szifrón é uma espécie de "Quentin Tarantino argentino", por saber unir humor negro com boas doses de violência. Mas num período em que o cinema dos nossos hermanos parecia que estava deixando de lado a criatividade para viver de comédias fáceis, Relatos Selvagens é um filme muito bem-vindo e qualquer tipo de comparação é perdoável.

8 de setembro de 2014

VIDAS AO VENTO (Kaze tachinu, 2013)

Ao assistir ao mais novo (e talvez último) filme do mestre Hayao Miyazaki (A Viagem de Chihiro e Castelo Animado), me veio à mente Santos Dumont, gênio brasileiro que criou o avião, mas que infelizmente viu sua ideia servir como máquina de matar na Segunda Guerra Mundial. Após Dumont ter criado a invenção de sua vida, surgiram gênios que aperfeiçoaram a sua obra, seja para guerra, seja para melhor conforto para viagens comuns. Jiro Horikoshi (1903 – 1982) foi um desses engenheiros, que amava aviões e queriam eles aperfeiçoados e belos, mas que infelizmente foram usados para a morte.

No filme, acompanhamos Jiro desde garoto, tendo sonhos em que pássaros se tornam aviões e que acaba recebendo sempre conselhos de um engenho Italiano no decorrer dessas viagens do sonhar. Mas estamos falando de um filme baseado em fatos verídicos e, portanto a fantasia e o impossível acontecem somente nestes momentos oníricos em que Jiro sonha. Sendo assim, o filme se concentra nos anos em que o protagonista estuda, se forma e embarca de cabeça em aprimorar os aviões e na criação do que mais tarde se chamaria kamikaze.

Porém, Miyazaki prefere fugir de temas delicados com relação à vida profissional de Jiro, pois estamos falando de um jovem sonhador, mas querendo ou não, ajudou na construção de um avião que seria usado para a guerra. Jiro queria somente fazer aviões belos, mas o filme não se aprofunda em dilemas que talvez ele tenha passado durante esse período de conflito mundial. Em vez disso, o filme prefere se aprofundar um pouco mais na bela e delicada historia de amor entre Jiro e a jovem Naoko, que havia conhecido durante um terremoto.
É nesta história de amor que o cineasta injeta toda a sua paixão pela animação tradicional, onde as cenas dos encontros do casal (como a do morro onde ela está pintando) nos proporcionam momentos líricos de encher os nossos olhos. Num mundo em que animação de computação gráfica domina o mercado, é muito bom ver que, quando animação feita à mão é feita por alguém como Hayao Miyazaki, é bom saber que essa arte ainda pode sim nos proporcionar momentos, que até mesmo a animação por computador não conseguiria nos dar. Os rostos de todos os personagens são sempre expressivos e distintos, mas moldado com um traço simples e muito bem pensando. 

Vidas ao Vento é um filme para poucos, pois é o mais adulto do diretor, mas não se esquecendo da geração que cresceu assistindo suas obras. No final das contas, Miyazaki faz uma declaração de amor para esses gênios como Jiro e Santos Dumont, que desejavam ser livres ao vento com suas maquinas voadoras e não querendo que suas obras fossem lembradas somente como maquinas de guerra.


14 de julho de 2014

A Grande Beleza (La grande bellezza, 2013)

Dono de uma visão incomum na forma de filmar, Paolo Sorrentino havia surpreendido a critica internacional ao arrancar um ótimo desempenho de Sean Penn no filme Aqui é o Meu Lugar e agora chega aos cinemas brasileiros com o seu surpreende A Grande Beleza, cujo protagonista vive conflitos internos e com relação ao mundo que vive. Aqui existe uma critica feroz (atenção na cena da conversa entre amigos), com relação à alta sociedade da Itália, mais precisamente de Roma, que por mais que vivam no luxo e festas, não escondem o fato de não saberem qual é o seu lugar naquele mundo cheio de luzes e cores. Tudo isso, através de um olhar amadurecido do protagonista, que se vê cansado de tudo, mas buscando algum sentido entre amigos e nas ruas da capital italiana.

Jep Gambardella, interpretado pelo ótimo ator Toni Servillo (visto recentemente A Bela que Dorme) fica perambulando e se fascinando pela sua cidade. Vale destacar, que isso é muito bem representado nos maravilhosos primeiros dez minutos de projeção, onde o diretor avança de um lado para o outro com a câmera, capturando o mais de essencial da cidade e fazendo um resgate da Roma de ontem e hoje. Em meio a isso, testemunhamos o protagonista dançando em meio a inúmeras pessoas (aparentemente) felizes e desfrutando do melhor que as suas vidas podem lhe oferecer consigo próprias.

Em meio a um círculo de pessoas da alta sociedade, vemos diálogos maravilhosos, que ao mesmo tempo são tapa na cara para alguns personagens, que se desconstroem com palavras duras, mas verdadeiras. Jep é um que não possui papas na língua, sendo que ele não suporta o fato de ver seus conterrâneos com a faca e o queijo nas mãos, mas ficam dizendo que sempre se sacrificaram na vida, quando na realidade nunca sentiram na pele o verdadeiro significado da palavra. Essa alienação é ainda bem mais sentida no momento que essa classe alta mergulha num universo cheio de festas, bebida, drogas e sexo, sendo que eles experimentam esses ingredientes noite após noite, talvez por acreditarem que faça eles realmente se sentirem-se vivos. 
Jep, por mais que queira, não se sente acomodado nesse universo que vive, que por vezes se refugia ao passado, se lembrando tanto do seu primeiro amor, como também indo a lugares que o façam se lembrar da grande beleza que foi aquela visão de quando era jovem. Ao mesmo tempo ele começa a experimentar algum sentido disso tudo, no momento que começa a dialogar e a observar personagens superinteressantes, desde as confissões de um padre quase papa, como também as girafas que somem, que são sequências de grande conteúdo e beleza. Tudo isso moldado por momentos que lembram o melhor da filmografia de Federico Fellini (principalmente A Doce Vida), mas Sorrentino sempre deixou claro que jamais buscou inspiração através da obra desse grande diretor. 

Embora seja um tanto que longo em alguns momentos, A Grande Beleza nos encanta pelo seu incrível visual fantástico e por nos apresentar uma fábula adulta contemporânea que nos remete ao passado glamoroso do cinema Italiano, mas que sobrevive ainda aos dias de hoje com estilo.


UM ESTRANHO NO LAGO (L'inconnu du lac, 2013)

Colocado como o melhor filme de 2013 pela revista Cahiers du Cinema, Um Estranho no Lago é um filme que retrata as relações e os riscos que elas podem trazer para a pessoa. Na trama, Franck (Pierre Deladonchamps) é um jovem que vai todo dia num lago rodeado por um bosque, aonde homens vão para se relacionar sem compromisso com outros homens. Enquanto curtia a água do lago, Franck dá de encontro com um homem solitário, Henri (Patrick d'Assunçao) numa parte do lago e vai conversar, se tornando apenas amigos e conhece também Michel (Christophe Paou), um homem com atitudes ambíguas por qual Franck se apaixona e inicia uma relação, mal sabendo no que está prestes a se meter.

Utilizando a câmera como uma espécie de olhos que observam o tempo todo, o diretor Alain Guiraudie, mesmo que lide com uma história onde atos terminam com as suas consequências, opta por um olhar que contempla, seja sobre o cenário nu e cru do bosque e do lago, seja pela nudez do homem e as cenas de sexo de Franck com outros homens trazem natural e cru que ao olhar do espectador, pode incomodar inúmeros, mas deixa em pratos limpos que o homem pode sim encontrar prazer no corpo de outro homem e para um público que ainda tenha certos tabus não admitidos em sua cabeça, pode ser difícil, mas é de se reconhecer tamanha coragem, seja do diretor ou dos atores.

Se na questão imagética, o filme trás um certo olhar poético, onde se foca nos corpos se encontrando e se ofegando no puro prazer do corpo e também, um suspense que dispensa uma trilha musical, porque não depende e é se preciso entender gravidade de uma cena ou seu lado dramático, pois o olhar do diretor tem uma mão mais pesada do lado mais natural e nem tanto teatral, e o que sobra é a excelente captação de som, que atenua toda a natureza por qual os personagens vivem em volta, a narrativa é sutil, tem ótimo diálogos) e constrói a história de modo que as coisas ficam cada vez mais perigosa ao longo dos minutos que passa.

Contando com atores talentosos, que senão são homossexuais, já que o teor de muitas cenas de relação sexual é explicita, não poupando o espectador até mesmo de uma cena em que possui sexo oral ou o sêmen disparando, demonstra então uma coragem que se encontra apenas naqueles comprometidos e que amam realmente a 7ª arte.


1 de abril de 2014

JOVEM E BELA (Jeune & Jolie, 2013)

De uns tempos para cá, o cinema vem provando que o sexo não precisa ser um assunto delicado para não ser ouvido, pois ele é algo que existe no dia a dia de todos e, portanto, se deve ser tratado como algo comum, para não dizer banal. Até recentemente, as telas tem explorado o sexo com amor (Azul é a cor mais quente), sexo por prazer (Ninfomaníaca), sexo por esporte (O Lobo de Wall Street) e, agora, em Jovem e Bela, se o sexo não passa nenhuma coisa nem outra, então que se invente, para então se tirar algo de diferente. 

A jovem Isabelle (Marine Vacth) perde a virgindade com um rapaz que ela se interessou, mas ele não há fez gozar e tão pouco deu a ela algum prazer. Porém, uma vez perdida a inocência, ela decide usar sua beleza e juventude para atrair homens desesperados, para dar a eles algumas horas de sexo e, assim, ganhar alguns trocados. Isabelle trata o sexo como algo banal, frio, mas que, pelo menos, lhe traz algum lucro. 

É claro que esse universo livre e sem preconceito de Isabelle, vai de encontro com o bom senso vindo de sua mãe (Géraldine Pailhas), que, por sua vez, possui seus próprios segredos. Ao vermos a mãe repreendendo a filha, percebemos o quão hipócrita é aquele mundo em que a jovem vive, onde tudo é sustentado pelas aparências, mas que, no fundo, todos possuem um esqueleto no armário: do irmão mais jovem que vai descobrindo o mundo do sexo a partir das experiências da sua irmã, como o padrasto que silenciosamente enfrenta seus desejos que sente pela enteada. 
O filme, entretanto, não dita por completo que você “deite e role” com relação ao sexo, pois há sempre um porém com relação a tudo. Isabelle aprende que há certos limites, mas isso não faz com que mude de ideia sobre o que realmente quer daqui para frente. O final representa muito bem isso, principalmente com a participação especial da atriz Charlotte Rampling (de Eu, Anna) que dá um verdadeiro show de interpretação mesmo em poucos minutos e criando assim um novo passo para ser dado pela protagonista. 

Jovem e Bela pode ser interpretado de diversas formas, como uma representação da frieza que podemos chegar com relação a certos assuntos espinhosos, ou simplesmente levarmos em conta sobre esses assuntos e sem preconceito nenhum. Se o sexo é errado, então estamos todos queimando no inferno.


25 de março de 2014

OS BELOS DIAS (Les beaux jours, 2013)

Por quanto tempo viveremos bem ao longo dos anos?

Essa pergunta não é para muitos, nem mesmo para aqueles que ainda não chegaram à casa dos 50 anos. Talvez, atualmente, sejam as pessoas na casa dos 60 anos que ficam se perguntando isso, mas jamais acham uma resposta bem definida. Caroline (Fanny Ardant, ótima) perdeu a pouco a sua grande e melhor amiga, o que acaba colocando-a num estado de depressão e à procura de algum sentido nos seus dias.

Aposentada da sua vida de dentista, acaba tendo tempo de sobra, mas não sabendo ao certo como aproveitar. O pior de tudo é que ninguém se dá conta da culpa que Caroline arrasta para um clube de aposentados, onde o marido (Patrick Chesnais) e as duas filhas com trinta anos, casadas e com filhos, acham que ela se distrai. O clube de aposentados “Beaux Jours” é um lugar onde ela fica mais cabisbaixa e não suportando a maneira alienada que as pessoas agem naquele lugar.

Mas, mesmo assim, ela vai segurando essa cruz, participando de aulas de teatro, cerâmica, yoga e enologia. Nesta última aula citada, ela está mais interessada em beber até cair do que aprender algo que já sabe de cor e salteado. Mas é ai então que surge na sua vida Julien (Laurent Lafitte), o professor de informática, um galã que puxa Caroline para seus braços sem muito esforço. Bonito, sexy, mas com algumas atitudes controversas, paquerador nato e tem a idade para ser o filho dela.

Alguns que forem assistir irão dizer que uma mulher mais velha com um homem mais jovem e com tempo de sobra na vida, seja uma espécie de busca para sentir os tempos da juventude. Outros, percebendo que Caroline ainda sente dor pela perda da amiga que amava, podem pensar que ela não se importa em ser enganada inevitavelmente pelo amante, para não pensar na morte dela, que a enche de dor, com medos interiores e inevitáveis.

A diretora Marion Vernoux não coloca essa situação da protagonista em julgamento politicamente correto. Só mostra o que ela faz em suas ações e o que irá fazer em seguida com relação a isso. Os Belos Dias foi adaptado do romance “Une Jeune Fille aux Cheveux Blancs” que, em português, se chama “Uma Garota de Cabelos Brancos”, escrito por Fanny Chesnel, que foi coautora do roteiro com a diretora. As conversas entre os personagens são mais do que humanas e, nos momentos em a protagonista caminha pela praia, são momentos de calmaria e de grande beleza.
O caso é que nunca é fácil ficar velho, menos ainda para uma mulher bonita, que quer ter e sentir algo de bom, em vez de cair na decadência nos seus dias. A atriz Fanny Ardant, que sempre foi um dos mais belos e ótimos talentos do cinema francês, conhece bem o que é passar a sentir o luto na carne. Na ficção, sua personagem perde a amiga e, na vida rea,l ela perdeu o seu grande amor, o diretor François Truffaut (1932-1984), quando ela tinha 35 anos. Só ela, em sua solidão pessoal, sabe muito bem como superou isso. Felizmente ela foi forte e destemida ao longo dos anos e mesmo estando com 64 anos continua mais bela do que nunca.

Os Belos Dias não é um filme para ser julgado, mas sim sentido, pois na vida, talvez devemos experimentar o imprevisível para nos fazer sentir bem, mesmo sabendo que todo o começo tem um inevitável fim.


13 de janeiro de 2014

Um Toque de Pecado (Tian zhu ding, 2013)

Um olhar cru de um diretor chinês que, através de quatro histórias inspiradas em fatos sobre como a China atual, assusta pelo fato daqueles acontecimentos não acontecerem somente lá, como também muito perto de nós. O sangue já jorra de uma forma inesperada, numa situação que poderia acabar de uma forma melhor, mas aqui é mostrada para retratar a reação do homem (ou mulher) perante a violência que não aceita mais tão facilmente, desencadeando então um lado obscuro da pessoa e que o leva ao caminho sem volta. Um retrato não somente da China atual, como também da própria civilização do século XXI, infelizmente.

Em pouco mais de duas horas, Jia Zhang-ke (de Em Busca da Vida) retrata o dia a dia de quatro pessoas comuns que, embora se cruzem umas com as outras no decorrer da projeção, suas tramas trabalham independentemente uma da outra, mesmo com o fato da violência ser um assunto que tenham em comum. Assunto este que vai da pessoa mais velha para o jovem recém começando com a vida, mas que não consegue administrar o descontrole de uma sociedade que, embora tenha a 'faca e o queijo na mão' para tudo ficar bem, não esconde o fato de não saber lidar com o despertar da besta do interior de um ser humano. Despertar esse que começa através das más ações de pessoas que acreditam que acham que podem fazer o que bem entenderem, mas que no fim, querendo ou não, sofrem as conseqüências. 

Acima de tudo, o filme é sobre a perda dos valores de um ser humano, desmoronamento da família contemporânea, o viver do dia a dia difícil, corrupção a torto e a direito, o lado cruel do ser humano contra animais indefesos, o valor abusivo do dinheiro na vida das pessoas que a transformam em seres como pedra e o nascimento do seu lado brutal. O filme se concentra em quatro historias, enlaçadas através de inúmeros detalhes que exigem um pouco de nossa atenção. Bom exemplo disso é o titulo do filme, que é visto num papel de parede que avistamos na terceira história do longa.

Sublime é a forma de apresentação dos personagens de cada história que, às vezes, surgem rapidamente dentro da história de outro personagem. O protagonista da segunda trama surge no inicio da trama do primeiro, que já desencadeia uma onda de violência sem precedentes, já fazendo o cinéfilo se preparar para o que está por vir. Existem os encontros em ônibus e trens e um dos personagens da terceira trama vai voltar ao cenário da primeira história e fechando, assim, um circulo.
Talvez um dos mais trágicos personagens do longa seja Dahai, da primeira história, um trabalhador de uma mina que se revolta contra a corrupção local. Tenta debater, argumentar, reclamar pelos direitos do povo aonde ele vive, mas tudo acaba de uma forma inútil. O seu rifle enrolado em um tigre enfurecido que molda um pano, irá encher a tela de sangue sem dó. A segunda leva a roubo e assassinato de um trabalhador deslocado de sua região natal, que perde o contato da mulher, o filho e a família. O terceiro caso traz à bela Zhao Tao, a mulher do diretor, que faz uma moça que trabalha como recepcionista de uma sauna e não consegue que o homem que ela está apaixonada deixe a sua esposa. Sem querer, ele deixa um canivete com ela e o objeto se tornara uma arma para ela, num dos momentos mais angustiantes do filme. 

É triste a quarta história, que envolve um jovem que tenta ajudar a família, mas que não consegue suportar a pressão dela e o leva num caminho trágico e sem volta. Em frente aos restos de um passado longínquo e mais dourado, a cantora de ópera chinesa pergunta para uma platéia que se encontra quieta:

“Você entendeu o seu pecado?”

Um toque universal apresentado neste filme, vindo desse cineasta genial, que fala não somente sobre a China, como também de todos os povos desse planeta.


2 de janeiro de 2014

A RELIGIOSA (La religieuse, 2013)

Alguns filmes que retratam os lados mais podres da Igreja Católica de antigamente (e atual), deve ter passado bem longe do Vaticano, pois arrumariam grandes dores de cabeça para ambos os lados. A batata quente dessa vez é A Religiosa, que possui diversas cenas incomodas, sobre os maus tratos que algumas freiras sofriam no século 17, por tentar desistir à sua vocação, morando em cubículos, tendo de sofrer torturas físicas e psicológicas. Além disso, o filme não se intimida em mostrar certos comportamentos dessas mulheres isoladas, que acaba contradizendo tudo o que uma mente conservadora acredita cegamente. É um filme que incomoda, mas também não exagera, pois a intenção não é somente chocar, mas sim fazer uma reflexão na medida certa.

Produção com uma fotografia das mais belas, com riqueza de detalhes do dia a dia do monastério, este filme nos revela uma impecável reconstituição daquele período, tendo ao fundo uma trilha sonora que se casa muito bem com cenas-chaves. Destaque também pelos belos figurinos, onde eles se destacam nas cenas ritualísticas da igreja.

É obvio que o principal foco da trama é mostrar como as regras, de uma das principais religiões do mundo, podem afetar de maneira diversificada cada uma das personagens, e a atriz Pauline Etienne consegue passar uma interpretação comovente como a bela e sofrida Suzanne. A atriz Isabelle Huppert é um destaque interessante como a Madre Superiora que se apaixona e assedia a jovem Suzanne - no final das contas compreendemos os seus sentimentos, de uma mulher presa internamente e sem poder liberar o que realmente sente. Um verdadeiro contraste de Louise Bourgoin, que faz uma madre que possui um punho de ferro tão terrível, que nos faz pensar como uma mulher pode querer ser freira e conviver o dia a dia ao lado dela.
Na 1ª versão do filme A Religiosa, do diretor Jacques Rivette (1966), foi muito comentado e até censurado em certos países pelo tema forte que envolve o sistema religioso católico, autoritário e severo naquele século. Resumindo, é um filme muito bem arquitetado ao representar os rituais da Igreja Católica, que ao mesmo tempo fascina e nos intriga a discussões inesgotáveis. As religiões devem levar ao caminho da comemoração e não para dor e tão pouco a prisão. Generosidade, compreensão, amor ao próximo devem ser pontuais na crença religiosa. E o que vemos no filme é justamente ao contrario, um lado tenebroso do catolicismo, em séculos anteriores onde a opressão eram permitidos em nome da Fé Cristã.


19 de dezembro de 2013

LORE (2012)

Dirigido pela cineasta australiana Cate Shortland (de Somersault, 2004), o drama sobre a segunda guerra mundial, Lore, é uma troca de perspectiva sobre o holocausto, diferente do que estamos acostumados a assistir sobre o tema no cinema. Se fossemos resumir a mensagem da trama, é que os vilões também sofrem e isso é mostrado sem dó, com muitos detalhes, neste estupendo trabalho. A atriz Saskia Rosendahl dá um verdadeiro show de interpretação na pele da protagonista que dá nome à trama e, com certeza, veremos mais em filmes posteriormente. 

Lore é baseado na obra The Dark Room, de Rachel Seiffert e conta a história de uma irmã que leva seus irmãos em uma viagem expondo-os à verdade das crenças ensinadas por seus pais. Durante o caminho, um encontro com um refugiado misterioso faz a protagonista aprender a confiar em alguém que em toda a sua vida foi ensinada a desprezar. Ao mesmo tempo, vai descobrindo a verdade sobre a família e o regime onde foi educada. Segura e com novas convicções para seu futuro, ruma para um destino cheio de surpresas.

O roteiro é muito bem escrito por Robin Mukherjee. Consegue recriar o cenário imaginado de melancolia, desespero e sofrimento que a história lança à nossa frente. A emoção é interrupta, dosada na medida certa para comover, gerar indignações e questionamentos, sendo que essas últimas estão concentradas nos derradeiros momentos da trama. Não chega a ser uma lição de moral, mas demonstra que a vida é uma grande caixa de surpresas e que, nem sempre, o mundo no qual nós vivemos é mostrado com clareza sobre os fatos apresentados em nossa volta. 
A co-produção Alemanha-Austrália consegue fazer diferença dos outros filmes que abordam esse mesmo assunto. Neste drama, somos surpreendidos por uma visão diferente dos fatos, mais ou menos como ocorre no emocionante O Menino do Pijama Listrado (2008). A descoberta dos irmãos sobre todos os horrores feitos durante anos por pessoas perto deles acaba desconstruindo e transformando esses personagens para uma nova realidade ainda desconhecida por eles. O público é levado facilmente pelas ótimas sequências captadas por Cate Shortland. A grande lição que fica da história é melancólica, mas não deixa de ser uma verdade para todos nos: ame o improvável, porque é o único que não irá lhe magoar.

Confira o trailer do filme abaixo:


13 de dezembro de 2013

9ª edição do Festival de Verão terá Mostra Banrisul de cinema francês

A Avant-première do 9º FESTIVAL DE VERÃO que inicia nesta sexta-feira trata clássicos do cinema francês, alguns deles ainda inéditos em Porto Alegre.
Produzido pela Panda Filmes, o Festival, que tem patrocínio exclusivo do Banrisul, traz uma mostra dedicada aos diretores Alain Resnais e Jacques Tati. Resnais conquistou definitivamente fama e prestígio com dois marcos do cinema moderno criados em torno de investigações sobre a memória: Hiroshima, Meu Amor, de 1959 e O Ano Passado em Marienbad, de 1961. Ambos serão exibidos na Cinemateca Paulo Amorim e no Instituto NT entre os dias 13 e 19 de dezembro

Considerado pela crítica especializada como o mais original comediante surgido no cinema depois de Charles Chaplin, Jacques Tati também é homenageado nessa edição. A Mostra Banrisul Cinefrance dedicada ao diretor traz seis filmes, com destaque para os curtas Cuida da tua esquerda, Curso noturno e A escola dos carteiros, ainda desconhecidos entre boa parte do público gaúcho. 

A abertura oficial desta espécie de “pré-temporada” do 9º Festival de Verão de Cinema Internacional, que batizamos de “avant-première”, terá sessão gratuita dia 13/12, sexta-feira, às 21h, e exibirá O Rio Nos Pertence. Filme que participou da mostra competitiva no conceituado Festival de Rotterdam em 2013 e recebeu prêmio de finalização. As demais sessões tem o valor estabelecido pelas salas de cinema. 

Programação completa da Mostra Banrisul Cinefrance

13/12/2013 – Cinemateca Paulo Amorim
14h30 – Mostra Banrisul Cinefrance Jacques Tati – Meu tio
16h30 - Mostra Banrisul Cinefrance Alain Resnais – Ano passado em Marienbad
18h30 - Mostra Banrisul Cinefrance Alain Resnais – Hiroshima Meu amor

13/12/2013 – Instituto NT
13h30 - Mostra Banrisul Cinefrance Alain Resnais – Meu tio na América

14/12/2013 - Cinemateca Paulo Amorim
14h30 - Mostra Banrisul Cinefrance Jacques Tati – As férias do Sr. Hulot

14/12/2013 – Instituto NT
13h30 - Mostra Banrisul Cinefrance Alain Resnais – Muriel
15h40 – Mostra Banrisul Cinefrance Alain Resnais - Hiroshima, meu amor

15/12/2013 - Cinemateca Paulo Amorim
14h30 - Mostra Banrisul Cinefrance Jacques Tati – Meu Tio
16h30 - Mostra Banrisul Cinefrance Alain Resnais – Hiroshima Meu amor

15/12/2013 - Instituto NT
13h30 - Mostra Banrisul Cinefrance Alain Resnais – Ano passado em Marienbad
15h15 - Mostra Banrisul Cinefrance Alain Resnais – Noite e Neblina

16/12/2013 - Instituto NT
13h30 - Mostra Banrisul Cinefrance Alain Resnais – Noite e Neblina
14h15 - Mostra Banrisul Cinefrance Alain Resnais – Muriel

17/12/2013 - Cinemateca Paulo Amorim
14h30 - Mostra Banrisul Cinefrance Alain Resnais – Meu tio na América
16h45 - Mostra Banrisul Cinefrance Jacques Tati – Curtas: Cuida da tua esquerda, Curso noturno e A escola dos carteiros

17/12/2013 - Instituto NT
13h30 - Mostra Banrisul Cinefrance Jacques Tati – Playtime TEMPO DE DIVERSÃO
18/12/2013 - Cinemateca Paulo Amorim
14h30 - Mostra Banrisul Cinefrance Jacques Tati - Curtas: Cuida da tua esquerda, Curso noturno e A escola dos carteiros
16h - Mostra Banrisul Cinefrance Alain Resnais – Meu tio na América

18/12/2013 - Instituto NT
13h30 - Mostra Banrisul Cinefrance Jacques Tati – As férias do Sr. Hulot
15h45 - Mostra Banrisul Cinefrance Jacques Tati – Curso Noturno

19/12/2013 - Cinemateca Paulo Amorim
14h30- Mostra Banrisul Cinefrance Jacques Tati - Curtas: Cuida da tua esquerda, Curso noturno e A escola dos carteiros
19/12/2013 - Instituto NT
13h30 - Mostra Banrisul Cinefrance Jacques Tati – Curso Noturno
14h15 - Mostra Banrisul Cinefrance Jacques Tati – Meu tio

Laís Ribeiro 
Assessoria de Imprensa 

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