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21 de janeiro de 2015

INVENCÍVEL (Unbroken, 2014)



Dizem que a maior história de todos os tempos é a nossa própria história. Louis Zamperini (1917 – 2014) é um bom exemplo que sintetiza isso, pois passou por inúmeras vidas em uma só: de um menino que roubava com apenas 9 anos de idade, para um atleta revelação que impressionou o mundo na corrida das Olimpíadas de 1936 em plena Alemanha Nazista.

Indo para guerra, acabou enfrentando de frente aviões japoneses e ao lado de dois companheiros, acabou perdido no mar por 47 dias, tendo que enfrentar fome, sede e inúmeros tubarões em volta. Mas o pior estava por vir, no momento que é pego pelo exercito japonês, justamente quando os dois países estavam vivendo o seu maior conflito naquele período. É claro que, como toda boa história verídica que se preze, ela já estava sendo sondada há um bom tempo por Hollywood, mais precisamente logo após ele ter voltado para a sua família.

Após inúmeros anos se passando e nada de uma adaptação para as telas, coube a ninguém menos que a própria Angelina Jolie (vinda de um ano bom após o sucesso de Malévola) rodar uma super produção como esta. Embora tenha apenas dirigido um filme anterior (Na Terra de Amor e Ódio) ela soube contornar alguns problemas bem nítidos, como o lado lacrimoso da trilha composta pelo premiado Alexandre Desplat e de alguns personagens interessantes que surgem em cena, mas que logo são esquecidos. A fórmula certa por ela ter conseguido driblar esses pesares, foi ter se empenhado ao máximo na criação de belas imagens, onde as cenas de combate em alto mar nos remetem diretamente há outras clássicas como Asas e a bela fotografia de Roger Deakins se tornam então a cereja do bolo nesses momentos e nos fazem a gente se esquecer de alguns deslizes.

Uma prova que Angelina tem futuro como cineasta é na sua escolha de elenco pensada, porém inusitada: Jack O'Connell como protagonista é uma verdadeira revelação, pois embora meio que desconhecido do grande público, seu desempenho como Louis Zamperini é uma prova que ele veio pra ficar. Mas o seu desempenho em cena, somente se torna completo, quando ele contracena com o cantor pop do Japão, Miayvi, atuando pela primeira vez na vida e como carrasco de um campo de prisioneiros que inferniza a vida do protagonista. Ambos acabam tendo uma relação complexa, em que admiração e ódio um contra o outro se enlaçam em vários momentos angustiantes.

No final das contas é um filme, cujo verdadeiro vilão não existe de nenhum dos lados, mas sim sendo a própria guerra, que é uma droga (até nos dias de hoje) e serve unicamente para transformar pessoas, não somente em combatentes, como também em companheiros do próximo e que pensam de alguma forma em ajudar uns aos outros.

8 de maio de 2014

GETÚLIO (2014)

Quando assisti Lincoln, última super produção de Steven Spielberg, apontei que a maior falha do filme era, na verdade, o próprio protagonista, interpretado por Daniel Day Lewis. Não que ele não estivesse bem no papel, já que estamos falando de um dos maiores intérpretes do cinema nesses últimos vinte anos, mas que, ao interpretar um personagem histórico de tamanha importância, Lewis ficou limitado e sem ao menos poder acrescentar algo a mais no seu desempenho. Essa falta de liberdade poética e artística na construção de um personagem é muito bem sentida também em Getúlio, onde vemos Tony Ramos quase idêntico visualmente com relação ao falecido Presidente, mas, por melhor que esteja em cena, sua atuação fica por demais limitada perante tamanha importância histórica.

Dirigido por João Jardim (de Amor?) acompanhamos os últimos dias do Presidente Getúlio Vargas no poder, em meio a duras acusações, ao ser apontado como principal culpado com relação ao atentado que o jornalista Carlos Lacerda (Alexandre Borges) sofreu. O grande ponto a favor da produção é que ela não perde tempo com relação às origens do protagonista, mas sim já avança aos dias de via crucis dele, para então descascar, dentro do possível, os elementos que levaram aquele fatídico dia de 24 de agosto de 1954. Num momento em que o cinema brasileiro vive uma fase de lançar filmes que retratam os anos de ditadura do Brasil, nunca é demais lembrar que o temível golpe poderia ter acontecido bem antes, mas que somente foi evitado graças ao sacrifício de Vargas. 

O filme segue fielmente o que está escrito nos livros de história. Com isso, o longa-metragem não ascende nenhuma nova luz sobre a origem dos fatos que desencadeou aqueles derradeiros dias. Portanto, temos aqui somente um filme, cujos realizadores se empenharam em apresentar uma produção plasticamente elegante, onde a fotografia de tons pastéis remete a um período de nossa história, em que transita de uma fase dourada, para tempos um tanto que mais sombrios e indefinidos que viriam a seguir.
Em contra partida, o elenco, mesmo se apresentando visualmente idênticos aos seus respectivos personagens históricos, se vêem um tanto que travados em cena e com pouca liberdade para acrescentar alguma coisa. Tony Ramos, como disse anteriormente, por mais que cumpra o seu dever de casa, lhe falta liberdade artística em sua atuação. Felizmente o ator global foi feliz ao contracenar com atriz Drica Moraes, que interpreta a filha do Presidente, cujas cenas juntos demonstram total sintonia.

Embora com as suas limitações, Getúlio pelo menos servirá como uma produção para ser bem vista aos olhos dessa nova geração, que desconhece momentos importantes da nossa história e que pouco se empenham em frequentar a biblioteca da escola.


16 de janeiro de 2014

O LOBO DE WALL STREET (The Wolf of Wall Street, 2013)

Entre o início de 2003 e junho do mesmo ano, eu trabalhava como promotor de vendas em Porto Alegre, onde vendia consórcios e prometia para o cliente que ele conseguiria, em pouco tempo, um carro. No entanto o que eu dizia para ele era um discurso copiado à exaustão, cujas mesmas frases eu dizia para todos os clientes que, infelizmente não liam a letra miúda do contrato quando assinavam e, devido a isso, nada de carro tão cedo na garagem. Quando as vacas começaram a ficar magras e senti a falcatrua no ar cada vez mais empestando aquele lugar, decidi então cair fora e procurar outra coisa mais honesta para mim, antes que fosse tarde demais.

Tempos depois eu soube que alguns foram presos devido a esse esquema e atualmente, até aonde eu sei, essa empresa trabalha apenas em seguros. Somente eu e outro amigo da época é que temos uma ideia de como aquilo era uma loucura, que precisava ser louco para conseguir dinheiro a todo custo, mesmo que, para isso, pudesse custar sua própria alma. Todas essas lembranças de um período de desespero para conseguir um emprego e dinheiro vieram à minha mente ao assistir O Lobo de Wall Street, nova parceria do diretor Martin Scorsese com o ator Leonardo DiCaprio.

Baseado nas memórias de Jordan Belfort, acompanhamos o protagonista interpretado por DiCaprio, que é um corretor de títulos da bolsa norte-americana. Durante o dia ele ganhava milhões de dólares por minuto e nas noites gastava com sexo e drogas, além de viagens internacionais. Dinheiro, poder, mulheres e drogas nunca eram suficientes, porém suas artimanhas e a vida corrupta levaram-no para a prisão. 
É aquela velha historia de que poder corrompe as pessoas. Se a pessoa não sai já no princípio, acaba subindo e subindo até o ponto em que o poder que investiu acaba se tornando sua maldição, mas ao mesmo tempo ela tem o dom de criar ouro, para o bem ou para o mal. Nisso, Scorsese retrata de uma forma enlouquecedora, com uma montagem rápida, câmera sempre em movimento, música ao fundo, diálogos rápidos e afiados, que fazem do filme, mesmo com 3 horas de duração, o longa mais ágil do diretor desde Cassino (de 1995) que possuía o mesmo tempo de projeção. A intenção dele talvez nunca fosse endeusar esse universo mentiroso que foi de Belfort, mas mostrar o seu dia a dia e como precisava ser louco, ambicioso e ter uma energia fora do comum para sobreviver e vencer num mundo como esse.

Loucura e ambição são os ingredientes que moldaram a vida do personagem, sendo que essas virtudes suspeitas, para seguirem em frente sempre lado a lado, era preciso um escape para ele, sendo drogas e mulheres aos montes. Sexo e drogas é outra coisa que chove no filme do Scorsese, onde o protagonista e seus companheiros se esbaldam sem pestanejar em situações loucas e com uma grande dosagem de humor negro que não se via na carreira do diretor há um bom tempo. 

Claro que, além do lado autoral do cineasta, o filme funciona também graças ao ótimo desempenho dos seus atores, principalmente DiCaprio. De uma parceria com Scorsese que iniciou a partir Gangues de Nova York (de 2002), DiCaprio cada vez mais se consolida como um dos melhores intérpretes da nossa geração . Aqui ele simplesmente incorpora o seu personagem de uma forma tão assombrosa e explosiva que fico me perguntando se ele não saiu afetado durante o percurso. Curiosamente, essa energia não se sente em seu personagem no principio do filme, mas sim no personagem Mark Hanna, que deu o empurrão para que Belfort seguisse nesse universo de negócios ilícitos e aqui é interpretado por Matthew McConaughey que, mesmo com poucos minutos em cena, nos brinda com uma cena que se tornou clássica instantaneamente.
Embora sejam baseados em fatos reais, alguns irão suspeitar que algumas situações absurdas (acredite, tem muitas!) na realidade não aconteceram, mas os que vivenciaram aquilo e segundo o próprio Belfort, realmente tudo aconteceu. Então, se presenciarmos um dos protagonistas tomando uma incrível dose de drogas e, mesmo assim, conseguindo dirigir o carro com o corpo todo mole até a sua casa, acredite, realmente aconteceu. Aliás, essa parte é disparada o momento mais ensandecido do filme e tudo causado pelo personagem Donnie Azoff, companheiro de Belfort, interpretado pelo comediante Jonah Hill, no que talvez seja o seu melhor desempenho na carreira.

É claro que os atos finais do filme mostram que o crime não compensa e isso é muito bem representado numa bela seqüência onde vemos o tira bom, interpretado por Kyle Chandler, indo de trem para casa e seguindo sua pacata vida honesta. Um contraste, se compararmos ao destino de Belfort que, embora tenha pagado pelos seus erros, estamos falando da América que se diz a terra das oportunidades, ou seja, para todos. Os minutos finais sintetizam bem isso, onde eu simplesmente não pude deixar de me enxergar no ano de 2003, em meio a dúzias de pessoas em busca dos seus sonhos, mas mal sabendo (ou sabendo muito bem), que sempre há um porém em se tratando de vendas ou a forma mais fácil de conseguir dinheiro na vida.

O Lobo de Wall Street passa o recado para nós, que na realidade somos ovelhas em meio a inúmeros lobos, mas, em vez de sermos devorados, corremos o risco de perder a lã que nos cobre e revelar o lobo que não queremos despertar em nós mesmos.


16 de dezembro de 2013

CAPITÃO PHILLIPS (Captain Phillips, 2013)

Se a trilogia do Borne, estrelado por Matt Damon fez sucesso, tanto de público como de critica (e ter conquistado três Oscars no terceiro filme), muito se deve a uma pessoa: Paul Greengrass. Ao lado de Christopher Nolan (Cavaleiro das Trevas) Greengrass talvez seja um dos poucos cineastas atuais que consiga trazer uma verossimilhança nas sequências de ação, nas quais faz com que o público que assiste acredite nelas e, ao mesmo tempo, sinta uma tensão genuína. Por conta desse talento, dirigindo uma trama baseada em fatos verídicos surpreendentes, o resultado final seria, no mínimo, positivo.

Baseado no livro "A Captain's Duty: Somali Pirates, Navy SEALs, and Dangerous Days at Sea", sendo escrito pelo verdadeiro Richard Phillips, acompanhamos sua história (interpretado com intensidade por Tom Hanks) que teve seu navio atacado por apenas quatro piratas da Somália, mas o suficiente para a trama se descarrilar para momentos de pura tensão. A situação piora no momento em que os quatro piratas sequestram o capitão e ficam presos dentro de um bote, onde começa a longa negociação com os serviços especiais americanos.

Tudo é muito bem orquestrado, sendo que Greengrass reserva o tempo na tela para a construção dos personagens principais: Phillips (Hanks) é veterano no mar, profissional em todos os sentidos e que, acima de tudo, arrisca a vida para proteger sua tripulação. Já do lado dos piratas da Somália temos o líder Muse (Barkhad Abdi, ótimo) que não poupa os meios que forem necessários para adquirir o que quer no navio. O que é apresentado na tela são dois lados da mesma moeda, mas que a situação os colocaram em vidas diferentes.
Embora nós torçamos para que capitão Philips saia bem dessa, ao mesmo tempo o roteiro não entrega a velha fórmula de mocinho e bandido que tanto vemos nos filmes americanos. Aqui, nos são apresentadas pessoas comuns, que tentam sobreviver no seu cotidiano, mas que, infelizmente, as circunstâncias fazem que seus mundos diferentes um do outro se colidem de tal forma que simplesmente não há volta. Os somali estão ali saqueando, pois acreditam que não há escolha para eles na vida e que a pirataria é o seu único meio de vida.

Culpamos quem nessa situação? Os países que não ajudaram a Somália? O próprio governo daquele país? As escolhas erradas que aqueles indivíduos tomaram? Cada um que assiste a trama tira suas próprias conclusões! 
Polêmicas à parte, do segundo ao terceiro ato da trama é uma verdadeira claustrofobia, já que os protagonistas principais ficam presos dentro de um bote onde os destinos de cada um estão selados. Até lá, Greengrass cria uma verdadeira montanha russa emocional, na qual só aumenta essa sensação graças à sua câmera movimentada, sempre passando a sensação documental, embalado com uma montagem ligeira e que dá uma verdadeira aula de como se faz as cenas. Tudo isso vai de encontro aos minutos finais da trama, onde momentos cruciais se aproximam e Greengrass passa a mesma sensação de um terrível e amargo fim, assim como foi visto nos duros minutos finais de Vôo United 93.

Não tenho dúvidas que o filme se torne o franco favorito em montagem, além de, claro, uma indicação para o cineasta e para Hanks, que pode se tornar o franco favorito no ano que vem. Filme indispensável para aqueles que buscam ação e suspense, mas tudo na medida certa e muito bem dirigida.

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