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4 de maio de 2014

O Espetacular Homem-Aranha 2 - A Ameaça de Electro (2014)

Ao lançar o reinício da franquia do Homem-Aranha no cinema, a Sony se viu com uma verdadeira batata quente nas mãos. Embora o novo Spiderman tenha se dado bem nas bilheterias, o primeiro filme dividiu muito o público (uns gostando, outros detestando), destacando principalmente as irregularidades, como os mistérios em torno dos pais de Peter que ficaram de lado, por exemplo. Felizmente, essa continuação não só melhora no ritmo como não cai em certas armadilhas do filme anterior e chega até mesmo a ser uma obra bem corajosa, diga-se de passagem. 

Para começar, Marc Webb (de 500 dias com ela) soube dosar muito bem os momentos de humor (o protagonista soltando piadinhas) com momentos de pura tensão e que nos faz temer pelo pior para o herói e seus entes queridos mais próximo. É impressionante quando, num momento, nós estamos rindo de uma determinada situação, para logo em seguida ficarmos sérios e nos concentrar pelo pior que vem a seguir. Essa mistura de sensações não somente cria sentimentos durante o filme como um todo, como também na construção dos personagens que nos são apresentados.

Se nas HQs Electro sempre foi o vilão mais insignificante de toda galeria vilanesca do Homem-Aranha, o mesmo não se pode dizer desse Electro apresentado aqui. Interpretado por Jamie Foxx (Django Livre), Electro surge como um verdadeiro nerd da ciência, grande fã do Homem-Aranha, mas com uma carência tão afetada que nos faz temer que seu personagem se torne o mais caricato e unidimensional do filme. Mas ao se transformar no vilão (num momento puramente simples e ingênuo) as suas motivações em cair para o lado sombrio do seu ser, acabam por incrível que pareça convincentes, para não dizer tristes, fazendo dele um personagem trágico e vitima das circunstâncias.
Electro, no final das contas, é o pequeno e bom exemplo do que Alan Moore (de V de Vingança) disse uma vez: "não há personagens ruins, mas sim roteiristas ruins". Isso se fortalece ainda mais na apresentação de Harry Osborn na trama. Interpretado pelo jovem ator Dane DeHaan (Poder Sem Limites), a sua personalidade e motivações são muito melhores exploradas do que vistas na trilogia original, onde o personagem era antes interpretado por James Franco. Embora o titulo do filme sugira que Electro seja a grande ameaça, Harry não fica muito atrás e sua transformação para ser o Duende Verde é de uma forma gradual, mas quando ela acontece de uma forma definitiva, os fãs mais velhos do herói aracnídeo já imaginam o que irá acontecer.

Aliás, quando eu digo que a produção chega a um ponto de ser corajosa, me refiro a momentos dramáticos dos quais a trilogia original não foi capaz de nos apresentar. Embora adaptada de uma forma mais ou menos diferente, um dos momentos mais cruciais da vida do personagem finalmente é levado para o cinema, de uma forma impactante e para os desavisados de um jeito inesperado. Quando esse momento da vida do Aranha aconteceu nas HQ nos 70, foi na realidade o fim da era de prata dos super heróis, em que eles perderam a sua inocência e começaram a encarar uma realidade muito mais próxima da nossa.

Contudo, esse momento apresentado no filme só não se torna tão marcante, porque ele chega de uma forma tardia, já que certas adaptações de HQ como Cavaleiro das Trevas e Watchmen, que mostram os heróis mais humanos e falhos em suas ações, já havia surgido anos antes nas telas. Fora isso, novamente o mistério em volta dos pais do herói não se sabe explicar para que veio. Se no inicio do filme (arrasador, diga-se) dá uma nova luz sobre o passado deles, novamente os roteiristas preferiram deixar mais para frente esses mistérios e, quando novas pistas surgem no decorrer trama, o espectador nem mais está interessado sobre isso.
Embora os seus cacoetes incessantes ainda me incomodem, Andrew Garfield está cada vez mais à vontade ao interpretar o herói e, pelo visto, o peso nos ombros que sentia ao substituir o Aranha anterior nos cinemas (interpretado por Tobey Maguire) não lhe incomodam mais. Emma Stone realmente foi uma grata surpresa nesses novos filmes, ao injetar muito mais carisma e personalidade na personagem Gwen Stacy do que era visto na sua contra parte nas HQ. Tanto no início do filme, como também no dramático ato final, ela rouba a cena e defende com honras a sua personagem que foi realmente o primeiro grande amor do herói.

Embora não se tenha chegado à perfeição que foi de Homem Aranha 2 da trilogia original, O Espetacular Homem Aranha 2: A ameaça de Electro é uma prova que os produtores ouvem muito bem as reclamações dos fãs e tentam, a todo custo, melhorar a cada filme que lançam. Resta saber se as pontas soltas vistas nesse filme irão ser esclarecidas no inevitável terceiro filme.


3 de fevereiro de 2013

DJANGO LIVRE (Django Unchained, 2012)

Um filme de Quentin Tarantino nunca é avaliado por seus próprios méritos. Isso seria uma vantagem injusta se fosse aplicada a qualquer outro diretor. Não seria certo, por exemplo, considerar Lincoln um filme melhor só porque ele é dirigido por Spielberg. Já Tarantino merece essa distinção. Django Livre poderia ser exatamente igual e ser um filme menor caso não fizesse parte da filmografia do aclamado diretor. A razão para isso é que Tarantino nos lembra constantemente que não devemos considerar essa como uma obra qualquer porque esse é um filme "dele".

A trilha sonora, figurino, elenco e principalmente alguns diálogos seriam quase inaceitáveis nas mãos de outro diretor mas aqui brilham quando aplicados aparentemente fora de contexto mas na verdade reforçando a ideia central do filme. O cinema de Tarantino ficou um pouco mais temático e fetichista em seus últimos dois capítulos. Bastardos Inglórios deu a judeus a chance de aterrorizar nazistas e agora os escravos tem a chance de se vingar dos seus cruéis senhores.

Se tratando de Tarantino e de sua violência exagerada (e por isso mesmo pouco chocante) eu fiquei surpreso ao perceber que o diretor teve a sensibilidade de deixar a violência contra os escravos o mais perturbadora e menos gráfica possível. Houve uma certa polêmica nos Estados Unidos pelo uso exagerado da palavra "nigger" no filme. No Brasil ela foi substituída pelo igualmente ofensivo "crioulo" o que mantém o espirito original.

Christoph Waltz mantém o mesmo nível de seu trabalho anterior com o diretor e esse já é um feito considerável. Se há alguma observação a ser feita é de que claramente Waltz não é o coadjuvante e sim o personagem principal. Jamie Foxx se sai muito bem como Django e mantém uma intensidade contida por boa parte do filme. Quando ele finalmente assume seu papel como condutor da história a trama já não tem mais para onde se desenvolver.
Leonardo DiCaprio entrega um bom vilão que intriga e interessa ao espectador, mas que parece se sair melhor nas cenas em que é mais suave e que acaba confundindo gritos esporádicos com intensidade.

Quem deveria ter sido indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante é Samuel L Jackson que, desde Pulp Fiction, não tinha um papel tão brilhante em uma obra do diretor. Jakson interpreta um negro racista que se vê como branco e, apesar da aparência frágil, encarna o perigo real do vilão do filme.

Eu assisti ao Django original (não que essa seja uma refilmagem) com Franco Nero e posso dizer que, apesar de se tratar de um clássico, o filme de Tarantino é superior.

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